Gravidez d’alma

Desde o parto da minha filha, cresce em mim uma gravidez d’alma. Tornei-me prenhe do desejo de ver nascer. Um desejo de propagar o milagre da vida acontecendo em sua simplicidade extraordinária.

Transbordo gratidão pelo amor que recebi em meu segundo nascimento, o nascer mãe-mulher. E a única forma de agradecer o amor é transbordando amor. Dou-lar a outras mulheres na incrível experiência de parir de corpo e alma. A cada parto algo em mim renasce, renasce, renasce…

A vida brinca e acha graça nascer enquanto ninguém espera

No portão já ouvia os gritos. Antes de entrar abracei a aflição mansa de quem me recebeu. subo as escadas e dou no quarto, portas e pernas abertas. Tudo tão rápido que meus sentimentos e razão não tiveram tempo de assentar, criar exspectativa da espera. O presente se fazia urgência, atropelava todos os pensamentos, e o instinto se tornava audível. A cabecinha, bem preta de cabelo, apontando entre as mãos trêmulas da mulher. O pai, parteiro, rindo… um riso de emoção e nervoso, seus gestos eram confiantes de quem está prestes a amparar a chegada do filho ao mundo. Inteiramente entregue ao momento, não era nem controle , nem abandono, mas a justa medida da espera atenta.

A cada contração um grito urrado, voz do fundo das entranhas. Como sua amiga disse: é bonito esse som, gritos de dor e prazer. A vida é mesmo deliciosa, sempre tão temperada de opostos. Enquanto, no quarto, a mulher sentia o círculo de fogo e gritava a origem da vida, um círculo de mulheres aquecia toda casa, uma rede de amigas abraçava calorosamente essa que paria, enchia os cômodos com sussurros de comadres, e chiado de panela. A casa era toda um colo de mãe.

Minha mão na cabeça da mulher, tocando seu suor, a vibração incrível que emanava de sua testa, seu olhar vidrado nos meus, um olhar misto de garra e acuamento. A misteriosa força frágil da fêmea parindo. O bebê nascia entre as mãos da mãe e do pai, que início de história lindo! Ser concebido e recebido no mesmo leito. Mais uma luz para o mundo, um ser feito de amor.

Parecia um milagre, um corpo se abrir ao meio, rasgando sua identidade mais primitiva, para dar vida a outro. Por um instante ser avesso de si, e ao mesmo tempo plenitude, preenchendo o vazio buraco feminino de sentido. De contração em contração, pulsação em pulsação, íamos conhecendo o novo ser que nascia, como é de se esperar, roxinho e inchado, cabeça afunilada pela viagem dentro do caminho de sua mãe. Estava ornado com duas circulares de cordão umbilical, seu amuleto da sorte! E todo banhado de branco, ungido pelos fluídos do parto.

Ao nascer foi conduzido pelas mãos do pai direto para o peito de leite, seu segundo ventre nos próximos meses e também por toda vida. Pouco depois o irmão entrou no quarto, ao ver a nova criaturinha no colo da mãe parece tentar elaborar o que sente, mas não entende, repetindo sem parar “o bebê saiu, o bebê saiu…” um misto de deslumbramento e espanto se expressam sem seu rostinho. Com dois anos e meio ele pôde participar do acontecimento mais belo e misterioso de toda sua existência. A energia do nascimento é contagiante, inspira um olhar de primeira vez, nos faz por alguns momentos sentir a presença do extraordinário, altera a vibração de nossos sentimentos e enche nossos olhos para o mundo com o mais puro amor.

Rascunho de “Escritos de gestação”

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Cuca,

“O mundo perceptivo da criança está marcado pelos traços da geração anterior e se confronta com eles”

Benjamin
Brinquedo e Brincadeira

Há algumas semanas atrás você era um relevo em minha barriga, eu mesma sem tocar o ventre, sentia meu corpo quase como antes. Mas você cresceu em uma velocidade além do meu tempo, minha percepção contemplativa do mundo sente vertigens com a rapidez do seu materializar. Quero sim poder vê-la e tocá-la com o tato da pele, mas não estou ansiosa, não tenho pressa, é boa a sensação de ventre pleno. Passa tão rápido que logo sentirei saudades de estar grávida. Sim, confesso que tenho tonalidades melancólicas, não raro vivo o presente angustiada que ele passe, penso muito no passado, parece que o tempo atravessa meus dedos e tudo escorre depressa demais, meu ritmo é lento, cada experiência se desdobra infinitamente em minha observação, percebo os fatos de forma demorada, mas eles continuam seguindo seu ritmo, não param para que eu possa tecer minhas apreciações. Assim as experiências vão se acumulando, esperando que eu as resgate para o presente.

Hoje eu procuro sentir toda a riqueza de nuances desse estado, muitas transformações se efetuaram em meus pensamentos, em meu sentir, as ideias amadurecem, as sensações estão mais afloradas, tenho vontade de mudança. A gravidez é revolucionária! Desejo manter-me sempre grávida, agora que tive acesso a esta percepção de mundo pretendo não abandoná-la, quero assumir esse ponto de vista transformador para toda a vida, como disse Karime mãe do Raul, ser eternamente grávida. Quero trazer o ventre de minha alma sempre pleno.

Porém, as transformações da gravidez não são da ordem do extraordinário e do sobrenatural, nenhum milagre se opera. Continuo sendo eu mesma, com as mesmas questões, continuo sofrendo de minha melancolia amarela e paralisante, mas acontece que percebo melhor minhas dores, não tento cegamente esquecê-las e culpar o tempo, abandono esse gozo da queixa e percebo que posso fazer algo com meus afetos aflitos.

Estou me esforçando para não paralisar frente ao seu vertiginoso crescimento, logo você chega e no tempo que tenho estou ativa na espera, me preparando para as mudanças que se estenderam em minha vida. Trata-se de uma atividade interna, de dentro para fora que rompe com as repetições e abre novas possibilidades de sentidos.

Como é de se esperar, começo a me questionar a respeito de sua educação, aliás, não gosto da palavra educação, prefiro falar da sua formação e das referências que receberá. Pois a palavra educação parece andar de mãos dadas com outras que gosto menos ainda, tais como adequação, obediência, avaliação… e aqui segue uma fila extensa de palavras que me desagradam. Bem sei que são só palavras, e que somos nós que lhes atribuímos sentidos. A questão é justamente essa, por conta de minha formação e as referências que recebi, é bastante difícil descolar certos sentidos das palavras. Eu, assim como todos que nasceram no leito de uma cultura repleta de ranços positivistas, regimes totalitários e patriarcais – nasci na década de 80, filha de militar- recebi a herança de uma educação centrada na adequação, na autoridade e obediência em prol de um progresso. Não estou dizendo que seus avós são déspotas, longe disso, eles são ótimos, irá gostar deles e provavelmente achará que são mais complacentes com suas vontades do que eu. Enfim, estou longe de culpá-los, embora seja tentador me entregar ao gozo da queixa e apenas sentar e culpar o passado, mas, como disse, estou me esforçando para fazer diferente. Então se volto ao passado é porque acho que esquecê-lo é o mesmo que recalcá-lo e permitir que continue exercendo suas influências. Minha intenção é ir ao passado com o propósito de elaborá-lo e desobrigar o presente de sua herança. E não se trata de um passado pontual, mencionei meu passado, mas poderíamos lançar este tempo ainda mais longe, poderíamos falar de outros séculos, do regime fascista, de todos os ditadores produtores de guerra, da autoridade dos monarcas, da idade média e 400 anos de caça às mulheres ditas bruxas, ou mesmo 15 mil anos atrás na antiga Índia, quando os povos arianos, guerreiros e extrativistas, saqueavam os dravidianos, povos matriarcais e centrados na produção agrícola e no autoconhecimento (acho que você ainda vai me ouvir falando sobre as “bruxas”e os povos dravidianos, sua mãe é apaixonada por tudo que diz respeito ao feminino e tem várias teorias, nada científicas, sobre o assunto). O passo atrás é sem limites, por isso corremos o risco de paralisar quando buscamos um culpado, então, como elaborar todo esse passado que se acumula atrás da porta do ontem? Acho que a resposta está em olhar para nós mesmos, pois este passado não existe se não em nossas memórias, uma memória coletiva da qual não podemos escapar, mesmo você Cuca, que ainda não nasceu já participa dessa memória. Você está dentro dessa cultura e recebe seu quinhão da herança.

Então a vejo em minha imaginação segurando a tradição que recebeu, um objeto sem graça, enferrujado e pesado, e me pergunta: “o que fazer com isso, mamãe?” Querida, eu também não sei o que fazer com todo esse peso do passado. Não posso lhe indicar o que fazer e o caminho a tomar, mas posso buscar a minha própria forma de lidar com o passado e assim espero que você também aprenda a buscar a sua forma. A única coisa da qual estou certa é sobre a necessidade de olhar para dentro, não culpar o passado como se ele fosse externo a nós, é necessário percebermos que tanto as tragédias da história particular, quanto as tragédias da história coletiva são parte de nós, não podemos nos separar delas, o que podemos fazer é dar novos sentidos a toda essa história. Deixar de repetir os velhos conceitos, olhar como as coisas foram até agora e, sem peso ou revolta, fazer diferente, mas não se trata de um diferente com o intuito de contrariar, mas ser diferente por necessidade do diferente, já que o que está posto não corresponde aos anseios.

É nessa encadeação de ideias que tenho pensado sua formação. Olho para minha própria formação e sinto que grande parte do que me foi passado, principalmente no colégio, não corresponde aos meus anseios, foram só normas, regras de conduta, conceitos arcaicos, repetição do mesmo, disciplina niveladora, cerceamento da criatividade e recalque dos sentidos. Toda uma educação concebida para eu ser como diz a música do Pink e Floyd, um tijolo no muro da sociedade. Essa minha citação me soa bastante inusitada, pois não gosto de rock, acho barulhento e um tanto revoltinha adolescente, um egocentrismo que gosta de ficar gritando suas dorezinhas. E quando paro para ouvir a letra, acho mesmo bem brega, uma letra ruim, gritada no último volume. Prefiro o samba, ele não quer incomodar gritando, não culpa ninguém e é capaz de transformar, é o filho da dor que gera prazer. Mas algumas coisas pontuais do Rock me agradam, o álbum The Wall é uma delas, principalmente porque, além de não ser tão gritado, aprecio seu gesto político. Ele usa a rebeldia do rock não para queixa vazia e obsessiva, mas para apontar um problema de nossa cultura, ou seja, a pretensão de se educar crianças para serem massa depuradas de singularidades. Eu, na leva das gerações, recebi essa educação, porém não me adequei tão bem, pois hoje, tendo em vista minhas atividades, não é possível afirmar que me pus na sequencia da parede, deixei por assim dizer um buraco no muro. Mas também ficou um buraco em mim, um imenso buraco que me suga para o passado, para os anseios que foram solapados por uma educação niveladora, para os desejos que tinha e que, para sobreviver, precisei conter. Fico pensando o que teria se desdobrado daquela menina se tivesse sido menos obediente, se fosse encorajada no exercício de sua liberdade, de sua expressão, se tivesse passado menos horas sentada em uma carteira ouvindo ladainha, e mais tempo em suas investigações minimalistas, se não a tivessem convencido de que para ser aceita e amada é necessário ser boa menina e agradar o outro.

Todo esse “e se” alimenta a melancolia do que se perdeu e a paralisante sensação que não há nada para pôr no lugar. Lembro muito de minha infância, das coisas que pensava e sentia, parece que busco resgatar algo que se perdeu nesse passado, fico procurando o tempo originário, anterior ao recalque social, cultural, como se pudesse resgatar a chama de minha existência. E assim me mantenho na obsessão desse culto ao passado.
Até agora foi assim que interpretei minha educação, como tempo perdido, ou mesmo como trauma de infância, sempre estremeço quando ouço barulho de sirene, e sou tomada por repulsa quando passo em frente a uma escola e sinto seu cheiro. Todas têm o mesmo cheiro de depósito de crianças. Mas se simplesmente tratava-se de uma revolta com o passado e eu me confortava em negar e maldizer a educação e a idiotia da pedagogia, de repente esse despeito se faz insuficiente, você está prestes a chegar, e o que tenho para lhe oferecer se estende pela via da negação, sei com o que não concordo na educação, mas não tenho ideia de como fazer diferente. Não adianta nada culpar o passado e permitir que ele se repita no presente. Apenas deixar um buraco no muro, é muito pouco. É necessário ver o que tem atrás do muro, é necessário quebrá-lo, destruí-lo, ou melhor, desconstruí-lo. Pois desconstruir significa permitir que se criem novas construções, com menos retas e mais curvas. Quem sabe os tijolos formem infinitas variedades de mosaicos como gostaria Benjamin (filósofo alemão que discorre sobre a crítica da cultura, e sobre o qual estou gestando minha dissertação de mestrado, por isso da epígrafe, olha, como vcs vão nascer na mesma época, acho que Benjamin é um pouco seu irmão).

Por isso, querida Cuca, levanto-me da confortável janela da queixa melancólica e procuro formas de agir diferente, ouço pessoas, novas ideias, saio do casulo de meus pensamentos, o que é bastante difícil, tão habituada estou a me proteger em meu mundo particular, no terreno de minha imaginação, porém não posso encerrá-la nesse meu mundo, preciso oferecer os elementos para que possa buscar seu próprio mundo. E para isso eu vou buscar os elementos que faltam a mim mesma. O caminho é longo, aliás, trata-se de um caminhar permanente, não tenho pretensões de encontrar as direções, para então poder lhe passá-las prontas. O que eu quero é convidá-la para buscar comigo, pois mesmo agora, enquanto ainda está dentro de mim, já apreendo em nossa relação, assim só posso querer que esse movimento continue, eu te ensinando e aprendendo com você, tal como um bebê, também estou me construindo, sou uma mãe e uma mulher em formação.

O ensejo dessa escrita surgiu a partir do filme “La educación prohibida”, ele foi indicado pelo grupo que recentemente venho participando sobre Waldorf. Espero que um dia você possa assisti-lo e não se identifique tanto quanto eu me identifiquei com o que diz sobre a educação tradicional.

Nota

Cartas fragmento: Linguagem original

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Querido Alberto,

Fiquei muito tempo sem lhe escrever, perdoe-me pela ausência. Ocorre que meus pensamentos estão tão ocupados que não tive espaço para sua escrita.  Mas de alguma forma não deixei de pensar em você, agora mesmo acabo de acordar de um sonho em que estava presente. Na verdade acredito que deixei de escrever, pois tenho lhe encontrado muito nos sonhos, o que há para ser dito é feito por outras formas de comunicação, nesse meu momento a palavra se revela um instrumento arcaico, incapaz de acompanhar a variedade do pensamento. Viajo em um lugar muito distante, onde se fala outra língua. Ainda não me acostumei com o idioma, gaguejo o tempo todo, cada palavra é um ensaio, estou tentando dizer esta língua nova, que se inventa a cada pronúncia, para esta, pouco vale todo verbo usado até hoje. Tudo que trago em minha bagagem não me serve aqui, preciso me acostumar a transitar nua e aceitar certa pobreza. Como é de se esperar, ainda sofro terríveis angústias, choro pela ilusão que se perde, e, as vezes, acordo sobressaltada com o nada, ainda acho muito difícil andar nesse novo terreno, meus olhos teimam em não ver o chão de forma que tenho muitas vertigens. Para você isso tudo deve parecer muito engraçado e quase o ouço dizer que vim para o lugar certo, sempre soube que você tem razão, mas dessa vez ajo pelo sentir e sou eu que lhe aponto o que fazer. Nunca pensei que o corpo desse autoridade, viajando nesse território novo descobri muita coisa, você vai gostar desse domínio do ventre.

Sei que as palavras foram poucas e sempre insuficientes, mas preciso ir, obedeço ao chamado do sono,  foi ele que me permitiu escrever, mas agora devo voltar, os olhos se fecham e eu me despeço.

Com todo carinho.

 

Minhas passagens

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“Os rituais modernos do início e do término da vida são incrivelmente parecidos: muito medicalizados. Os motivos explícitos são incrivelmente parecidos: segurança, higiene. Os motivos omitidos também são os mesmos: encobrir a desordem da emoção e da dor.

Afinal, a mãe é despossuída do parto como o moribundo o é de sua própria morte. Ambos têm de se entregar em silêncio ao ritual técnico. Por que teriam direito à fala, eles que- por um momento ou para sempre – não são mais nada? Ao dar entrada na maternidade, a mãe entrega sua identidade como o agonizante abdica da sua ao ser hospitalizado. Pouco importa quem são ou foram; só interessa a partir de então o ato para o qual se preparam: dar ou perder a vida. Nascer, propiciar o nascimento ou morrer deve ser um mero parêntese na ‘verdadeira’ vida. A jovem mãe deve esquecer a provação do nascimento, voltar a ser depressa, bem depressa, a moça que era. Os sobreviventes do morto, os parentes e amigos também devem atingir a mesma amnésia. Mudar logo de casa, refazer a vida, voltar ao trabalho. Esquecer, apagar tudo. A vida é dada do mesmo modo como se morre: sem ousar sentir nada, sem palavras, sem lágrimas.

Nas mães, o silêncio perdura. Fico surpresa com o pouco que têm a contar sobre o fato as mães que deram “a luz sob anestesia. Entretanto, houve com certeza emoção. Encafuada em algum lugar da memória do corpo, e sem nunca se manifestar”.

Marie Bertherat

Cartas fragmento: para Alberto, sobre dentro e fora

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Alberto, lhe escrevo de um lugar distante, na outra margem da consciência, no avesso da lembrança, daqui, de tão longe, sinto saudades, quero te falar do que aconteceu e do que não chegou a acontecer. Lembro das nossas conversas, você dizendo que tenho muitas teorias, que penso em espiral descontínuo, e que minhas ideias são como cachos de cabelos que não se penteiam. Queria lhe mostrar as novas ideais, os novos cachos. Sempre estou prestes a lhe escrever, mas, antes de pegar o papel e a caneta (devo ser a última pessoa que ainda escreve cartas com papel e caneta), chega o esquecimento, a vontade amolece e eu me entrego a um daqueles livros, deixo seguir a leitura passiva, como quem se põe à espera de algo. Você sempre diz que sou a mulher da espera, eu não concordo, mas nem saberia discordar. Nessa fase, que a espera se justifica em meu corpo, sinto-me ativa e não há qualquer ansiedade em meus gestos, quero que o tempo siga sua justa duração e, enquanto dura, me esforço em só perceber todas as nuances entre o dentro e o fora. Acho que era sobre isso que queria lhe falar. Querido interlocutor que habita outras camadas da consciência, será que já se deu conta dessas diferenças entre dentro e fora? Esses dias estava mergulhada em meus pensamentos, esperando o sono que não vinha e, de repente, percebi que faz algum tempo que o corpo dentro de mim tinha seus próprios movimentos. Minha percepção atingiu outras camadas, eu permanecia dentro, mas talvez estivesse um pouco fora, por me voltar ao corpo em mim, ou talvez estivesse ainda mais dentro… enfim, sei que me afastei do desencadeamento das ideias e adentrei as camadas da pele, pude sentir cada centímetro desse corpo que, com a minha respiração profunda, ganhava espaços, até que tudo se pôs calmo e eu adormeci em sonhos, imagens e sentimentos que me remetiam aos meus pensamentos, ao meu corpo e à algumas lembranças. Todas as profundidades se misturam nessa dimensão onírica, sempre parece haver em cada sonho um presságio, a confissão de um segredo que, desperta, não sou capaz de perceber, uma presença além do real, além das coisas que inventamos, trata-se de algo para o qual não há palavras, só intuição. E eu sigo acreditando que há esse algo a mais que não chegamos a tocar, e é por isso que lhe escrevo.

Um grande abraço com todo gesto do peito.

Homem médio

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Pina escuta o falatório de Matias, um discurso empoado, cheio de senso comum mascarado de revolução marxista e ares niilista, filosofia barata toda aquela coisa, fabricada em porta de buteco. Ela olha para um ponto entre sua orelha, percebe que tem lóbulos recessivos, começa a pensar alguma coisa sobre isso, mas ele a toca como fazem essas pessoas que falam com as mãos, o toque desagradável a traz de volta à explanação sobre qualquer coisa. Por falta do que fazer, ela presta alguma atenção no que ele diz, e logo se sente como uma espécie de advinha naquele discurso previsível.

Olha para o céu e vê alguns urubus passando, sua mãe, certa vez, disse que, se pudesse voar, até urubu aceitava ser. Mas urubu vive de restos, Matias tem jeito de urubu com seus argumentos de cachaça e puta, ele quer devorar toda ideia ao seu redor, não para somar com o outro, mas sim pelo gesto de aniquilar, nesse instante ela pensa: “para este urubu estou sendo carniça”. Ele fala alguma coisa sobre congresso e a política, mas é tudo sem chão, de forma que é impossível reproduzir o que diz. Pina olha bem no fundo de seus olhos e pensa: “acho que esse cara fumou um ”.

Matias diz que planeja explodir tudo, fazer matanças, ela faz cara de assustada, pois acredita que é essa a expressão que ele intenciona arrancar. Explodir tudo! De repente a ideia soa maravilhosa à Pina, e ela se imagina sendo o dedo que aperta o botão e explode a bomba nuclear. E com o desencadear desse pensamento ela percebe como já está enraivecida, os pés beiram o abismo do insuportável. Matias continua falando, ele é um exemplo dessas tantas pessoas, desses homens médios, que têm ideias, mas não têm noção de como idear, de como conjugar suas ideias, de forma que não passam do infinitivo. Matias quer opinar, mas não aceita os pressupostos do ato de opinar, assim suas ideias são apenas desejos com palavras. Ela gosta desse raciocínio, mas tem quase certeza que está influenciada por alguma leitura, não consegue se lembrar quem teria escrito, acaba resolvendo o impasse da autoria e justificando seu plágio, dizendo para si mesma que quase tudo que pensamos não nos pertence.

Pequenas mãos se gesticulam em sua frente e ela volta a atenção para as orelhas de lóbulo recessivo. O seu enfado com a conversa já ultrapassou a barreira da aflição e ela permanece prostrada nessa escuta flagelante, sem ao menos entender porque não se levanta e simplesmente vai embora.

Encruzilhada da cachaça

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Matias vem trôpego, encontra com um conhecido de fala arrastada que efusivamente o abraça e reclama o telefonema prometido, o qual recebe uma desculpa sem esmero e um convite para cerveja. Matias entra no bar, pede cachaça de gengibre para evitar a ressaca e a bebe de um único gole, fazendo careta igual remédio. Depois sai com uma garrafa de cerveja na mão e copos de plástico na outra, antes de abandonar o apertado buteco, ele esbarra em um amigo, do qual não se recorda o nome, o cumprimento é caloroso e regado com cerveja, o papo já começava e aparece a amiga da namorada de Matias, ele a cumprimenta e sorri dizendo que vai ali e já volta, se distancia do casal e logo se junta a umas figuras que só encontra em determinado estado ébrio, também nunca viu essas pessoas sóbrias, esse pensamento o faz olhar para o copo que está mais vazio do que cheio.

Na volta do bar, munido de cerveja, cachaça e cigarros, o acaso o leva ao mesmo grupo, pode-se dizer que há aqueles que possuem um imã para garrafas cheias. A conversa gira em torno do último movimento de rua, discutem as reivindicações, injustiças e revoltas, reclamam dos manifestantes que com quê autoridade querem vetar a bebida na ocupação?! O fino de mão em mão chega ao Matias que esbraveja algumas palavras, faz um intervalo antes de terminar a frase, e… não se recorda o que ia dizer… tanto faz, ele engata outra ideia e a conversa segue na sua graça esburacada e distraída.

De repente um cansaço e os olhos pesam, pensa em voltar pra casa, um lapso o lembra das tarefas do dia seguinte, o corpo estremece, e um pensamento o socorre: A saideira! No caminho do bar a coincidência traz um amigo que lhe oferece um teco para acordar, os dois vão para um canto, uma moça surge como formiga em açúcar, olhando bem, parece bonita.

Matias já não se lembra do cansaço está enérgico, forte e vigiado por Tranca Ruas. Em frenesi ele quer tudo, acende um cigarro, pede mais cerveja e enlaça a cintura da pomba que gira e já pousava no seu ombro. Outros conhecidos chegam trazendo conversa, trazendo cerveja. Uma cachaça para moça e um brinde. Um mendigo passa e leva uma lata meio cheia, meio quente. Outro rapaz leva um cigarro, alguém avulso pede fogo e fica na conversa, a rua já se esvazia, as pernas querem cadeira, cama, mas estão grudadas no asfalto com cola de cerveja do santo, cachaça barata, mijo e vômito. Um amigo de rosto desconhecido bate no seu ombro, a conversa segue, os dois têm algo a dizer, mas nada para ouvir.

De chofre decisão! Ir embora! A cabeça pensou tão rápido que as pernas se embaralham e tropeçam, um bêbado faz troça e é desafiado com olhar de sangue. Por sorte uma mão camarada disse “deixa disso” e regou a raiva com cerveja gelada que desceu bem no dia quente, o sol chegou manso e passou despercebido, talvez, encolerizado por não ter sido notado, ele queima a pele de quem passou a noite cantando para lua.

O transe noturno é suspenso com o sol a pino e o olhar sobe à realidade: Em volta há duas dúzias de gatos pingados devotos à pinga, espuma no chão, violão desafinado, lixo na rua, bancos ocupados, pernas bundas e decotes na promoção, bolso vazio, olhar embaçado…

Matias esfrega os olhos, cabeça e estômago pesam encharcados e secos, ele acordou e antes de saber onde está, pensa em nunca mais voltar na esquina da Gomes Freire com a Mem de Sá.

Outro lado do sublime

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Estar grávida é ganhar poderes além mundo, é tornar-se a ponte entre o espiritual e o material. É ser passagem, ser expressão do sexo, nascimento e morte. É ser comunicação sem palavras, é linguagem primordial. É estar acima do espaço, acima do tempo, pairando sobre todas as coisas. É mesmo ser origem do mundo, é ser um pouco divina, meio humana, meio espírito. Estar grávida é ocupar um corpo com duas almas.

Instância afetuosa

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Amor constante, o tempo cria raízes, aprofunda os sentimentos. Uma década e já não é possível imaginar outra vida. O futuro se delineia em permanecia e ruptura com o passado, o conto de fadas é real, o felizes para sempre são momentos e lembranças, um jogo de sim e não, a tensão entre o contraste de humores. Em meio ás oscilações, o amor não declina, é constante, sólido como o desejo quer um corpo dentro do outro.

Sublime abismo

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O sublime da gestação não pode ser maquiado com ares de pureza, um imenso abismo separa as mulheres da santa que concebeu virgem, o belo do espírito se faz absurdo de carne em quem pelo coito gera. Os pés esvoaçam no ar, não porque levitam, mas pela falta repentina do chão. A mulher paira fora dela, não porque seu espírito se eleve, mas se antes estava acostumada a dizer: “sou aqui, dentro de mim”, em algumas semanas o dentro passa a abrigar um universo desconhecido, uma misteriosa vida cresce no seu interior e a mulher passa a dizer “te espero aqui fora”. Nessa vivência momentânea, a mulher se despoja de seus desejos, já não é senhora de sua vontade, ela vaga ao sabor dos novos apetites. A percepção está aguçada para perceber a mais remota ameaça de perigo, o simples gesto de atravessar a rua já não é feito com a citadina graça desatenta. Se antes era costume nadar depois das ondas do mar, o corpo, com seus novos volumes e pouco equilíbrio, se contenta em molhar os pés na espuma agitada da água. E qualquer gota de sangue que antes naturalmente jorrava entre as pernas, passa a apresentar a nódoa aterrorizante da morte. Já os olhos passam a transbordar com naturalidade, os humores tremulam em extremos. Todos os sentimentos, memórias e até angustias infantis saem do seu calabouço e fazem festa na superfície, na pétala em flor da pele. Uma força faz sentir um enraizamento na terra e, curiosamente, em noite de lua, a barriga parece querer o céu.

A gestação é sublime por se aproximar do infinito, da vida e morte, do que sentimos e não há palavras para expressar, ela está um abismo distante da pureza do belo, mas não se encontra na outra margem, a gravidez é o próprio abismo.

Para Lola

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Entrou sorrateira, arisca, olhar enorme que mergulha o espaço em seu verde de pupilas minúsculas. Apetite discreto que esboça um desdém para mais tarde reclamar o que lhe é de direito. Com gestos graciosos, sabe impor sua vontade, se afeiçoa sem submissão, em sua austeridade se movimenta e solicita afagos, possui a mágica de desaparecer, parece mesmo não precisar percorrer as distâncias com passos, simplesmente surge e some, igual à luz, ela se movimenta pela intuição do seu pensamento ou, talvez, ela tenha livre trânsito com outros mundos. Assim, como tudo que é mágico e misterioso, ela tem o encanto de não ser pura, sua aparência evoca a força da miscigenação, toda possibilidade de ser se concretiza nela, por isso não se faz bonita, nem feia, apenas possui uma beleza particular, impossível de ser descrita, mas como uma esfinge nos paralisa diante a contemplação do seu enigma.

Anjo decaído

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Criatura sem coração, sem cérebro e mãos, aglomerado de células que se dividem, multiplicam, dando forma ao sem forma, isso que é acontecimento decisivo em mim e veio abrupto do descuido e da vontade que não chegou a ser consciente, isso que não me foi anunciado por etéreo canto celeste, mas pela mão de terreiro e pelo entoar carnal dos sintomas. Isso que no presente é um cisco, uma intuição que o ceticismo duvida e vai buscar provas laboratoriais para suas certezas concretas. Os olhos da ciência mostram 3 milímetros pulsando no ventre, sim! Algo habita esse universo físico que desconheço, meu avesso intocado. Entrou pelo meu céu e de lá vai cair. Preocupo-me com esse anjo decaído, ainda não tem mãe. Hoje procuro em meu infinito e só encontro filha, uma menina atônita com o repente do acontecimento. Vai crescendo ai criaturinha, na sua sabedoria absurda de se materializar, deixa sua alma pairar no meu sentir, e sua pulsação fazer ritmo no meu pensar, que uma maternidade vai se amarrando em mim com cordão de carne e fio de tempo.

½ hora de embates internos

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Quando se insiste em colocar em segundo plano um acontecimento dito risível, mas que, ironicamente, nos torna invisível; não era nada, pouco importa, mas abate, desmorona e confunde o pensamento. Novamente o sentimento de forasteiro, a segregação consumada, do pensamento para o gesto. O efeito é dar de ombros, o despeito recolhe-se no canto, e faz abrigo em isolamento glacial. Tão difícil reconhecer que toda causa é responsabilidade íntima, aceitar que as mãos se fazem vazadas e deixam correr vontades. Foi decisão própria acomodar-se no canto confortável e incumbir o trabalho à negligência. Mas a centralidade do umbigo insiste em defender-se, tanto que convence que foi descaso do outro, a questão se põe, não há motivos para auto severidade, e a complacência impera, o todo dos fatos são reinterpretados. Mas que se exploda! O mecanismo de defesa é ativado e impõe que se interrompa a flagelação mental. As neuroses se esvaziam e o espírito agradece, se vê livre da querela da mente e vai cuidar dos afazeres.

Minhas passagens

“A tagarelice feminina, as palavras ao léu que esvoaçam sem peso, testemunha que mulheres não apostam em palavras, que não deixam que elas lhes roubem a alma. Mulheres não se deixam impressionar pelo assunto, pelo que é comunicado, mas levam a sério o prazer lúdico da conversa. Estão fora do círculo obsessivo das significações e dos embates dialéticos das conversas masculinas. A linguagem das mulheres é a das palavras ainda não aprisionadas no sentido, nas abstrações da lógica. É a linguagem arcaica do passado, da infância, não burilada pelos requintes da dialética: ‘A linguagem das mulheres manteve-se rudimentar’ (citando Benjamin). É a linguagem do silêncio de onde brotam as possibilidades de uma linguagem não instrumental. Mulheres são como vasos de onde jorra o passado, receptáculos silenciosos onde se germina o futuro da linguagem (…)”

Katia Muricy

Amante de mim

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Gosto de estar comigo, me agrada muito pensar as coisas que penso, gosto destes momentos que não faço nada, paro tudo e me observo ser.
Vejo o comportamento de minha imaginação. Como a aprecio! Deixo que faça suas graças dentro de mim, sou muito complacente aos seus caprichos. Crio ditosamente esta menina, a alimento e a excito e ela me vira a cabeça, modifica minhas opiniões, destrói sem remorsos minhas verdades e eu a acompanho sem titubear, obedeço seu “faz de conta” e transformo toda sua criação em realidade,e então ela vem inquieta com novos planos e me obriga a abandonar tudo com que eu começava a me acostumar.
Ela quer me manter sempre pairando no nada, na incerteza. Na verdade, devo confessar que resisto bastante em ceder aos seus indecentes caprichos. Mas ela é ardilosa, conhece cada entranha de mim e se instala em meus pensamentos à minha revelia. E de repente, com toda sua coqueteria, seus gestos graciosos e suas mãos habilidosas, ela me manuseia, sua língua me explica ao ouvido suas intenções, sua voz penetra os poros de minha nuca, me fazendo compreender cada palavra até mesmo as que não pronuncia.
Neste sorrateiro encontro com minha imaginação sinto todo meu espírito oscilar e me lanço no precipício das ultimas decisões. Ao contato desta sedutora tudo é derradeiro e fascinante. Negar suas vontades e me abster em jogar tudo pelo ar para seguir suas fantasias, parece a loucura mais despropositada. Ao lado da imaginação a cautela, o bom-senso e a prudência são pura fraqueza de indecisão.
E se eu de bom grado sou sua refém é por que, sinceramente, estou convencida de que ela está certa e jamais amarguei arrependimentos por ter obedecido às suas paixões, ao lado de minha imaginação me sinto plena e suficiente. Gosto de estar comigo, são tantas aqui dentro que a solidão é festa silenciosa.

Tim-Tim

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Pequeno som duplicado e agudo a ressoar nos ouvidos da memória. Lábios entre abertos como após um beijo e olhos enredados, calando e confessando o motivo do brinde. Um instante apenas, uma pequena cena na montagem da história. Mas que, como um imã, buraco negro ou espécie de vácuo, traga todos os pensamentos, o olhar se fixa nas margens desta lembrança, na imagem do chocar de copos que comemoram e inauguram, indeterminável como um sonho, inexplicável como o ressoar deste fino som agudo. Nenhuma interpretação se amarra nesta lembrança, ela apenas paralisa todo gesto na vertigem da imagem que, como um soluço, eclode em intervalos e faz tremer toda razão.

Positivo

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Ainda não acredito, a ciência diz sim, evidências no corpo, a intuição berra em meus sentidos, mas ainda duvido. Fosse com outra pessoa, tudo bem, não haveria o que contestar. Mas eis que se passa comigo, justo eu. Parece distante, estranho, afinal, apesar do pouco cuidado, nunca me ocorreu tal coisa. Não percebi que chegava minha vez, não deu tempo de me preparar, acostumar com a ideia e desejar. O desejo, esse está um tanto confuso, oscila em sua expectativa incrédula. É bem verdade que quase sofro em pensar que houve um engano, só pela via do não consigo perceber meu desejo. E a intuição sussurra: é um menino.

Stoyana

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Escrito por Rosa Pele

A imagem surge como ereção na imaginação que lembra. No fade in da cena um branco imaculado tremulando em mastro, a superfície aperolada faz o desenho perfeito dos seios de um coração, o qual é manuseado com toda vontade do ato. Na base das costas de mármore a cintura desemboca em boleados quadris, sentados desenham esse branco coração que se faz apertado em mãos de palmatória e garra, mas todo o resto se abre em incessante movimento e é permitido ver, nas curvas do coração rosados, orifícios onde flecha penetra e some. Sons agudos de quase dor são entoados a cada fincar estreito. E o coração pulsa acelerado nos movimentos harmônicos da maliciosa dançarina branca. Leve libélula, torce seu fino tronco e encara quem vê com olhar mais longo que mastro e mais penetrante que flecha. Lança convites para mais, absurdo insaciável, gestos absortos na lida de excitar. Inventa carícias para entreter os olhos anônimos, um corpo moldado para o prazer, bailarina de cama, se faz objeto e domina a esgrima da espada com um abraço de pés e em qual magnífico contorcionismo coloca-os na boca e lambe o gozo entre os dedos, deixando a mostra todo seu céu em flor.

Revolução em pensamento aéreo

Percorro lugares, no entre caminhos leio livros tchecos que me transportam os sentidos. De repente, em meio aos intervalos da leitura, a visão é elucidada. Acontece o pensamento singular que, em um lampejo, liga todas as partes da vida. Compreendo! Um suspiro calmo clareia meu rosto, tudo passou, neste ponto o nó da repetição se desfez, já me sinto livre para viver o próximo instante. No ar, digo silenciosamente: bem vindo em mim belo horizonte.

Portal da rua

A mágica que acontece na rua. A ordem do inesperado atropela a experiência de quem sai de casa. É só abrir a porta e pôr-se para fora, o palco dos passantes é o espetáculo. Calçada, praça, vitrine e bares lançam seus chamados, oferecem aos olhos um turbilhão de surpresas, e aos passos proporcionam andanças labirínticas, é só saber flanar. Cada ricto, encrespar de gestos e soar de expressões anunciam a existência do desconhecido. O simples transitar na calçada pode acordar o originário desejo por descobertas, aquele desejo há muito esquecido na infância, quando tudo era secreto, extraordinário e mágico. Na rua é possível encontrar um estreito portal para a primeira vez.

Reviravolta, versos e reversos

A vontade da escrita é dominada pela ação dos olhos, sem atinar a mão caça as imagens da memória como a borboletas, fazendo do voo do inseto seu método de escrita. Neste instante que se projeta no lembrar, a vista se torna etérea e acompanha a paisagem do espetáculo. A ocupação na praça, lugar de passagem, se torna palco, banquete de famintos para quem já se acostumava a não sentir, o abismo do hábito explode em pasmo basbaque. As delícias são oferecidas: vozes, violão e sopro, dedos negros em dentes brancos, e um sorriso descomunal costurado com tinta no rosto. Ao lado do castelo de areia, se oferecem ao toque bicudos seios de gesso. Um esbarrão de flerte espalha pozinho de rapé envolta do artista louro com palavras de fada. A alma flana em busca de corpo e encontra onde pousar.
Ei, cuidado! Não vai tropeçar no leito da senhora que sonha no chão. Em meio ao seu delírio duro, a anfitriã da rua põe-se de pé como em um encanto, ergue-se em pernas magistrais e bambas, lança seus convites, pede esmolas e dança frenética no centro da roda. No encontro tudo gira, gira, gira, roda gigante de gente disposta, mistura mesclada de ritmos e gestos, a surpresa da ocasião estampa um contentamento no semblante. A noite veste seus trajes e torna-se dama disponível, devota aos encantos, nesta hora toda conversa é prazer, os rostos estranhos exercem o fascínio de terras estrangeiras, tudo está para descoberta, a novidade lança sua mágica.
A embriaguez foi declamada em versos e, em prosa, é elogiada. Os sentidos brindam a intimidade do acontecimento. As entranhas são expostas em cada expressão que se mostra: na dança do ventre acinturada por olhares em meio ao globo da morte, no terreiro do palco, na encruzilhada da praça, enquanto no varal as imagens de cores e palavras quaram sob a lua que, nessa noite, se chamou azul e se fez de um branco absurdo! A sombra de São Jorge se retirou da esfera na altura e veio para baixo brincar com a gente.
Nessa reviravolta, o corredor de passagem se fez trânsito de ideias, Praça Costa Pereira de endereço no mapa, tornou-se um lugar para deixar-se estar.

Afago no cão dos diabos

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Um homem de trinta anos entra clandestinamente, passa sem ser notado pela porta entre aberta. O caráter mede sua estatura, porta gestos de inquietação e pressa, pretensões de posse, ciúmes doentio pelo que toca, embora não mantenha nada em suas mãos. Para este homem, o mundo é um brinquedo que cedo lhe entedia a atenção. Voraz apetite por novidade.

Assim segue na vertigem do agora, não tem passado, apenas lapsos de lembranças, repetições de imagens embotadas pelos vícios. Suas experiências não somam sentidos, e ele passa sem ter nada a acrescentar aos que se aproximam. Sua direção é um permanente flanar de prontidão por vagas oportunidades. Ele só cativa o que alimenta seu reflexo no espelho, qualquer vantagem que preencha seu vazio; uma conversa, um copo, um corpo, amores inventados, paraísos artificiais, excursões ao oriente, a volta ao mundo sem dinheiro, tráfico de armas, negociar poesias, caçadas de vernissage.

Em todo tempo vago, enquanto a oportunidade não se apresenta, ele alimenta seus vícios, anestesia sua espera pelo nada. Mas de qualquer forma, é fiel à espera, jamais se lança em busca. Como não tem direções próprias, prefere aguardar os sinais do acaso, pois, toda vez que se põe em empreitada, arrepende-se da iniciativa. Sua identidade apresenta os contornos de um homem que diante as possibilidades não sabe o que quer. Uma criança orgulhosa que recebeu poucos cuidados, se camufla em pose de radical, pois tem receios que descubram suas fragilidades, que deseja colo, deseja mão maternal que o segure para fazer xixi.

Pequeno homem criança, seu corpo enverga as dores de um ancião, o descompasso do tempo desequilibra seus passos tortos de pés chatos. Depois de seguidos tropeços, ele sente que já não é possível permanecer onde entrou, olhos e gestos o convidam a se retirar, a vista grossa que o concedia favores, cegou com suas grosserias. Sua presença ausente se fez insuportável.

O homem de trinta, entrou pela porta entre aberta, e arrombou a porta dos fundos para sair.

Declarações Etílicas

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O álcool sobe à cabeça e os pensamentos descem ao ventre. Lateja falta dentro da carne, o vazio agita todo o corpo. Vazio na cabeça de ideias evaporadas, vazio na boca, o vinho escorrega pela garganta e as palavras não se amarram com tanino na língua, jorram incessantes em alegre verborragia. Vazio da cavidade do peito que reclama sintonia de coração, vazio entre os pés na dança em que falta o chão. Vazio da falta de ar que não preenche os pulmões, vazio do olhar que está aqui e em todo lugar. Vazio de frio na barriga que devora todo gesto. Vazio no centro do corpo, que gira e domina todos vazios.

Banzo

Têm dias que me sinto um cachorrinho sem dono, desolado, sem casa, sem canto. Olhar doído e vontade de abraço, de colo, alguém pra ficar ao lado sem dizer nada, o conforto do silêncio compartilhado. Uma companhia desinteressada, um querer gratuito, afeto seguro. Têm dias que eu não basto, a solidão incomoda, mas também não quero troca, nada de diálogo, quero ficar quieta e, sem precisar pedir, ser acolhida. Quero seio materno e segurança de pai. Entrar em casa e ouvir a conversa da família misturada com barulho de TV. Silenciar o alarido do mundo em meu lar.

Abro a porta e recebo o abraço frio da sala vazia.

Ludibriar de lentes

Felicidade vazada, fluída, translúcida, brilho negro reluzente e grave, desejo pulsante para fora, uma paz tranquila nos gestos, a cor vibrante entre as mãos, jogo de protuberâncias e orifícios, a alma também é corpo, e a beleza dá contornos às formas. No contraste, os movimentos tornam-se ainda mais belos. Ação gratuita de doar-se, abrir-se em espasmos uníssonos, adentrar a descoberta de forças mitológicas, São Jorge no peito, fascinação mística, puro fruir de sentidos, abandono de expectativas, o que vem é lindo, mas de costas é ainda mais perfeito, assim, deixe partir.

Rasgos de Anita Fiszon

Tecido esterçado, pano que tampona buracos, vazio de uma sobra. Entre as bordas, linhas esticam braços no que não há para segurar, os excessos de sentidos fazem teia, armadilha para deter o que está disperso. A costura não amarra, apenas distende o pano, que por um fio se fende, dando a ver os buracos, vazios de perda e ausência, e um feminino pulsa nesses recortes de obra, Penélope de agora tecendo suas faltas.

Nos vazios de luz o ar não concreta. Então deixe circular, permanente passagem, pois para todo o vazio há bordas, este meio que existe entre a matéria e o nada, o corpo e o real. O que há são apenas contornos.

Às quatro

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Vontade de sexo, vontade de gozo, gemido calado berrando nos movimentos de meu períneo, o corpo diz agora e a cama reclama presença, os dias seguem lentos e o desejo transborda e mantém. Não se sabe o que espera, mas espera com frenesi e poros transpirando, buracos abertos, é tudo passagem e nada permanece, a não ser a constante vontade desnuda, deslavada.

Cai a tarde e a pele esquenta, o pensamento cambaleante, um empurrão e o sim é dito, não há pressa, prazo e hora, é só vontade, vontade e vontade. Prazer fugaz, quase perverso, rompe ordem e tempo, confundi a hierarquia das necessidades. As palavras se amontoam em um reclamar incessante como o desejo, nada sacia pensamento e corpo… quiçá outro pensamento, outro corpo.

Veludo azul

O sentimento é seletivo. Para amar recortamos as palavras doces, as boas lembranças, um minúsculo gesto e olhar, o calor do corpo, as delicadezas, e vamos costurando um manto feito de retalhos de pura seda e macio algodão, nuances coloridos de momentos juntos. O pano desbotado é descartado e as nódoas do tecido são escondidas no avesso. Quando o amor se afasta ou se esvai, vestimos os caprichosos trajes com tanto apego, que parece que toda sobra desbotada e áspera nunca existiu, o que há é apenas o toque de veludo azul e quente, uma fantasia idealizada pelo afeto que se sente.  

Sevilha

Precisão de escrita, não se aproxime, há muito de mim aqui. Mas gosto de sua presença, veja bem, quanta intimidade nesse encontro.  Divido minha ebriedade contigo, vamos aproveitar o instante, em algumas horas não será hasta la vista, mas o trágico adeus Sevilha, a deixarei pelos amores da bela lusitana. Então passamos para os tremoços, devoro fome e sede e é tudo corpo. Olhe as tangerinas nessa arvore que faz sombra, não é feita para o   apetite, apenas para ver, e já gosto disso. Sumo azedo, tragicamente azedo, mas redondo e laranja quase fosforescente, é tudo natural, até esse falar com ovo na boca, risada escandalosa, a mi me gusta seus excessos,      gestos e verbos. Si, “bale”! “Bamos”… mira a garçonete sexy de marinheira, estouro de risos, fantasias e acho que faz algum sentido, que “benga”  cervejita, o mapa da cidade está encharcado,  seus olhos estão pequenos. Obsevo seu rosto, e atrás dele o sol poente, um foco de câmera no fundo e aqui. Levanta!  Vamos para praça assistir o sol alaranjar palácios!

Marrakech

Cidade cor de ocre, pôr do sol laranja. Tudo é incrível e bizarro, sem lei e com normas rígidas. Meus olhos estão constantemente aflitos em busca de pistas para uma interpretação desse mundo. Quando me dou conta já me perdi nesses labirintos estreitos quase escuros, homens me olham, me apedrejam por ser mulher e não vestir submissão de fêmea. Sinto-me segura em meio às hostilidades, a proteção que preciso vem do meu desejo de engolir o mundo. Então me aproximo, barganho palavras e negocio línguas, saio do flanar turista para tocar  o real. De repente, esses olhos secos de bocas vazias são mais do que uma foto, é sentimento, falta de esperança dessa pobreza, um vagar permanente à espera de nada, talvez uma oportunidade de barganha, mas, enquanto se espera, eles narram o que não podem comer, contando o dirham  no bolso e a prenda que levarão para mulher. O tempo passa e o sol se derrama nessa cidade de cheiros, sons e despertar tarde. Depois de almoçarmos lesmas, sentamos e bebemos chá de hortelã negociando haxixe ou argan, e tudo parece bom por aqui…   

Três dias líquidos

No infinito ínfimo, nesse instante em que se estende o toque, experimento sentimentos tempestuosos brotarem e precipitarem o peito, prazer e gozo querem encharcar os olhos, molhar os corpos, umedecer afetos. Liquefaço, jorro sentimentos de carne e espírito, ondas de desejo e calor, a razão se afoga, o tempo escoa. Navegamos a esmo na superfície da cama, lençóis e travesseiros ondulam o mar de colchão, absorvendo suor e fluidos que escorrem no encontro de pele. Sinto-me entregue ao sabor desse homem, nele mergulho e me perco, transbordo, aqueço e evaporo. Preencho-me dele que em mim, de tão sólido, se faz líquido.

Vazado de anel

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A mulher entra em casa e, como tomada por um transe, se dedica à procura de uma aliança perdida, desfeita, roubada. Seu corpo apodrece de dentro para fora, entranhas infectadas, ela purga e suspira com alguma ansiedade aflita, um estranho odor emana do que se ousa chamar identidade. A palavra cala e sensações se desdobram, percebe sua carne em intercâmbio de fluidos, em seu corpo desencadeiam sintomas de gestos que não são seus. Há movimentos, fluxos que se cruzam e jorram em sua cavidade, estagnando-se nesse centro, em pouco tempo formam poças de líquido podre, onde todos se concentram. Bizarra forma de se comunicar com o mundo. Não há interlocutor para as palavras que fluem como secreções, e, na angústia do seu silêncio, ela se afoga em água de chuveiro. As dores não são físicas, mas provém do corpo, uma chaga que embaça o olhar, inflama os sentidos e infecciona o humor. A vontade lateja insegura, a identidade do corpo cambaleia doente, a beleza que apodrece deixa de ser desejada, o outro não desvanece em sua presença.

A fantasia e a angústia ocupam o mesmo lugar na estrutura feminina, mas não ao mesmo tempo. A fantasia é o anseio de esvanecer o outro em sua presença, é a construção que se faz acerca do enigma do desejo do outro, quando essa fantasia é perturbada, abre lugar para a angústia, para o vazio, a certeza de não preencher a demanda, a impossibilidade de responder as questões do desejo.

A mulher sai do banho e insiste na procura, revira gavetas, papeis, e guardados, olha a paisagem emoldurada na janela, abre a geladeira, fuma um cigarro. Onde encontrar a aliança perdida, halo de ouro primário, promessa de felicidade e satisfação há tanto imaginada?

Marcha das vadias

Somos muitas. Pernas compassando o mundo, seios em balaço solto no espaço. Identidade vazada, buraco no corpo, abismos de sentidos. Criamos metáforas, véus, mistérios. É sempre difícil dar contornos ao querer. Somos muitas, pudicas em gestos, por vezes fálicas, passos retos, corpos em curvas, vontade de sei lá, complacentes à luxúria, plenas de amor, bacantes possuídas, santas recatadas, sérias e devassas. São tantos os lados, é plural o apresentar-se fêmea, inconstância desse buraco em expansão de limites, desejo em marcha permanente. Somos todas santas, todas vadias, somos mulheres.

Aos apaixonados

Como todos se aprazem em falar de amor. Na poesia é rima favorita; alguns vestem o dito sentimento com trajes graciosos, meigos, quase pueris; outros preferem as palavras carnais, e há quem aproxime amor e escárnio. Ouvimos e logo reconhecemos em nós o sentimento e algumas vezes chegamos a ser tocados com o assunto.

Mas o curioso mesmo é que ninguém sabe ao certo o que o outro chama por amor. Trata-se do sentimento mais universal e paradoxalmente, mais individual e incomunicável. Escutamos a declaração inflamada: “Amo-te!” E ouvimos como se o outro dedicasse a nós nosso próprio amor. Não sabemos como a experiência de amar é sentida por aqueles que nos amam. É sempre por analogia com nosso próprio sentimento que tentamos adivinhar o que o outro sente. Porém, esse método é tão pouco eficiente que o amor permanece como sentimento incomunicável. Ninguém confessa, ou preferem ignorar tal fato, mas a verdade é que o amor é irmão gêmeo da solidão.

Carne de gente e outros sentimentos

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Destroços de caco de carne batem na cavidade do peito, posso ouvir o sangue jorrando pelo corpo vazado. Levanto do choque, piso fofo, o chão falta e toda pele dorme: tato dormente e trêmulo. Uma tontura roda a cabeça, acho que está oca. Talvez, há muito já tivesse se esvaziado nos sucessivos acidentes. É mesmo comum acontecer do cérebro escoar para o peito e para outros cantos do corpo, e então a carne da razão vira um processado de sentimentalidades, loucura e desejo. Pedaço gordurento de caos, tudo frito no calor dos impulsos.

Neste caso, depois de tudo devorado, os restos de corpo e de pensamentos foram moídos na máquina do real, bem rápido, em um golpe certeiro de abatedor, ainda não dói, mas sinto que escoo, espalhada em pedaços miúdos, uma massa quase líquida, e meus músculos flácidos se juntam a esses pedaços: miúdos de carne, entranhas, miolos, vísceras. O pensamento apodreceu, nem mesmo o esqueleto serve de sustentação, os ossos envergaram de tão roídos no ácido dos sentimentos avinagrados. Do bolo de gente só restou unhas no sabugo e olhar congelado.

Desvios

Será que percebe as horas que me doem da distância? A permanente espera por algo que não vem? Ao final do dia ouço a voz franqueada por um aparelho, um consolo vulgar para a pele que deseja toque e calor. Quando enfim nos falamos, é tudo rápido, breve, prático. Recebo uma atenção clandestina, entrecortada em afazeres. O amor é devorado pelo tempo e a cada manhã envelheço. Mas ainda bem que a noite é sempre jovem.

No silêncio da chuva derramo vinho na taça que ainda havia suco, me recolho em palavras, suavizo a luz do quarto, olho para os livros que não li, olho os insetos que entram pela janela e para a taça de vinho com suco de manga. Estar aqui é tudo que há, existir se faz no pensamento.  Meu fruir preenche a casa e os desejos. No meio de mim o telefone chama, mas dessa vez já não espero, não tenho vontade de atender, atendo a outros anseios e não gosto de dividir atenções, agora o tempo é meu, em meu ritmo, plácido e entregue a pouco, quase nada, contemplo o absoluto de meu pensamento que se desdobra em conexões de imagens, cheiros e sons influenciam o curso das idéias, parece que algo em mim pensa, e eu estou entregue a esse algo. Percebo cada movimento do meu corpo, o efeito da taça de vinho aquecendo levemente minhas mãos e pés, o cansaço do final do dia. A hierarquia das necessidades se inverte e as preocupações de repente embotam. A felicidade é coisa simples.

Eternidade da espera

Submeto-me à espera, sou a mulher que aguarda, Penélope sem reino. Invento expectativas tão vazias, promessas de felicidade nunca ditas e me coloco sentada olhando o tempo pra ver o quanto demora. Conto os dias como um avarento, ansiosa para recolher o amanhã à minha coleção de tempo que passou.Tendo a crer que me agrada a espera em si mesma, pois com que habilidade encontro motivos para me fazer esperar.

Talvez haja algum prazer nesse fiar e desfiar o tempo, um gozo em nada fazer, apenas assistir o capim crescer, momento em que nada de grave perturba a calma nervosa de quem espera. Para o desdobrar-se do nada a melhor ocasião é a espera, só nela é possível passar o tempo, sem as angústias do derradeiro e da brevidade das coisas. Na espera cabe a eternidade. E devo confessar, tenho tanto medo que acabe, e a única certeza é que tudo acaba, marchamos para o fim, e fim é perda, um despedir do que é, para deixar de ser.Assim, por inconformismo e pirraça, não vivo o que acontece, apenas me ponho no infinito do tempo que precede todo acontecer.O tempo da espera.

Urubuzando

Olhar de rapina em palavras alheias, um vôo de spleen toma meu texto, em um único gesto sou devorada e cuspida. O que conto não agrada, o conto não agradou.

Prolixo, demasiado, um tanto chato, nada que faça ficar. E ele, fatigado de tanto verbo, alçou vôo, deixando no céu anil a silueta escura de suas asas, como tatuagem no peito. Desaparece no mistério de seu codinome, mas deixa suas frases gravadas, apenas poucas palavras, o suficiente para romper com o silêncio dos leitores, fazer ler quem escreve.

Nem vagina, nem boceta

Quero um gato para morar nos olhos e ronronar no colo. Arranjarei um peixe, se chamará Peixoto. Agradam-me os nomes antigos, hei de chamar a filha, se a tiver, de Pina (ontem me emocionei com o filme do Wim Wenders), já o filho se chamará Heitor. O gato não tem nome, pois esqueci. E para tantos outros que vierem, receberão palavras só suas, sons que se farão escutados pela primeira vez no meu balé de batizar, para tudo há nomes! Só para o meu sexo não há. Ainda não encontrei a palavra que trace contornos para o buraco que sou.

Vontade de ser abóbora

A noite sempre tem jeito de festa íntima, as preocupações e ansiedades vistas pela agudeza do dia são desfocados no diafragma aberto da luz noturna, tudo se põe no mesmo níveo da simples vontade de continuar acordada. Como dormir na melhor parte da festa? Nesta madrugada hora que mais se deseja viver, dormir é um sacrifício, uma pequena morte, despedida de Cinderela pra não virar abóbora.

Rosa pele

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Santa Rosa, puta redimida, de tão abocanhada esconde suas marcas em longas saias. Encara o mundo com petulância e resignação, não disfarça seu jeito de rua. Traz um furacão nos olhos e, ajoelhada em prece, provoca desatinos em ateu e cristão. A função lhe moldou os gestos, mas de certo, as roupas de virgem inspiram respeito.

Ajoelhei-me ao seu lado, e não pude evitar bulir com os olhos o volume da saia, que em instantes fez-se volume na calça. Inclinei as cabeças para frente e cruzei bem forte as mãos, assegurando que não escapassem. E mais uma vez, os olhos indecorosos adquiriram os sentidos do tato, tocando montanhas de seios, a visão em conluio com o olfato me arremessaram no jardim de pele, canteiro de rosa, botões e flores vermelhas orvalhadas de libido.

Vejo santa tão rosa, plantada ao meu lado de joelhos no chão. Desejo confessar meus pecados, volto-me para seu rosto alvo, de soslaio percebo olhos bicudos e cegos me encarando, ela também me olha, interrogativa e, pelo hábito, receptiva…

Já não posso descrever o que se passou, essas coisas de fé não se explicam, a razão de meus pensamentos foi atropelada por mãos e línguas, colhi Rosa e na sacristia a despetalei, com bico de pássaro lambi seu doce e abri que delicado botão de flor. Essa santa de bondade me recebeu em seu céu de boca, dedicada em prática religiosa, me fez adentrar paraísos sem maçã nem pudor. Eu, como homem devoto, reconheci sua santidade e nunca mais rezei.

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Dança de passarinho

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Pintura sobre colchão, olhar pontiagudo e lânguido, coração em ritmo de samba, pele em seda, vontade de vôo e de pouso. Asas indecisas de borboleta, flanam ao vento. Jeito doméstico na vertical e o inverso na horizontal, mas, em paraísos artificiais, tudo se horientaliza, a vontade deita no chão. Ao dia, agonizante verdade: beleza não põe mesa.
A noite enfim chega trazendo seus banquetes, nessa mente glutona não há limites para o que se pode imaginar, precária liberdade… e a vida pulsa, momentânea, ao sabor da estação. Instinto de ave sazonal.

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Despe pedida

Foto: Hedwig Marina

Foto: Hedwig Mariana

Tristeza amarguinha no centro de mim, algo que abate meu olhar e me faz vibrar em som de gaita e samba. Jardim de melancolia, cultivo jasmim de solidão e rosas azuis. Não sou muito afeita às alegrias, às vezes rompantes de felicidade me tomam os sentidos, mas nada para durar.

Ser feliz é um estado pontual. Essas pessoas risonhas sempre me parecem um tanto dementes, me assusta suas extravagâncias. Prefiro me recolher em meus lados, remoer minhas dores e, de repente, faço tudo durar dentro de mim, invento meu prazer e faço revolução com o olhar parado em canto de parede.

Perfil do presente

Não sei o que esperar, a visão de adiante é sempre um tanto nevoada e o agora é tão mais nítido. Vejo em cores quentes e vibrantes o fugidio agora, sensações que me preenchem de imagens, lembranças de momentos vividos.

Em meio a um turbilhão de acontecimentos, na confusão do que foi e do que vai ser, nas várias imagens que serão vividas, se juntam recortes de tempo congelado para serem guardados como imagem do instante que sinto.

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Sem café

Parte partida, palavras que afloram do que murcha. Tudo é feito pra escrever, é esse o sentido, e cada um que invente o seu. Em meio ao turbilhão do que acontece: as angústias de colchão, os sentimentos que nascem sem licença, as carnes de carnaval que desfilam em plena semana, os desencontros e as dispersões, os gestos que ferem pequenas fragilidades, os mundos em que entramos e saímos, e, para tudo mais que não se entende, as palavras traçam algum sentido, imagens verbais, fotografia falada daquilo que os olhos não vêem.

A palavra nasce da vontade de sair da bolha, de arejar, de respirar o outro, mas muitas vezes a vontade masca, pois a incomunicabilidade é nosso ar. Para cada pessoa um sentido, uma palavra. A frase estala como um chicote em seu próprio dono, mas insistimos em dizer, pois o açoite é melhor que o vazio mudo do sem sentido.

Amor: antídoto para o tédio

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Para todo vazio só o amor é capaz de traçar algum contorno, instaurar sentido para o absurdo da existência e justificar o nada, trazer à repetição dos dias um frêmito de alegria. Talvez porque haja no amor uma crença no futuro, sem se perder de vista a própria condição de finitude. O amor é um chão sem chão, é feito de nada e por isso mesmo é tão eficiente contra o nada.

Lapsos de névoa

Algo de ansiedade, nervosismo, temores. Sentimentos tão comuns em meu espírito sobressaltado, tão fácil me desorganizar, tão fácil me por à superfície, à beira de meus precipícios. Um olhar, uma palavra, um gesto, um nada, e eu transbordo, perco os domínios, me espalho, pulverizo em névoa e dissolvo. Deixo de saber quem sou, o que sou, o verbo “ser” perde sentido em minha razão vaga e já não sei conjugar. Não há linguagem que dê contornos a minha dispersão. É tudo silêncio e grito, eco mudo dos desejos que me habitam.

Sento, espero passar e passo com a espera. O tempo devora e me faço alimento. Por ser tão líquida e inconstante, já não sirvo nesses pensamentos. Levantar abrupto. Interrompo a escrita.

Certeza (minha versão Leal)

Mas olhe para você: pele branca como folha de caderno, nela hei de escrever histórias, tocar poesia, desenhar prazeres. A vida há de ser boa no brilho desse corpo alvo, nu de pêlos, quase puro, puro em sabores e pensamentos profanos.

Hei de tocar seus poros, alcançar todos os cantos, no seu ouvido dizer segredos de causar que delicioso frêmito e espanto. Hei de fazer alucinar com meus caprichos e dedos. No meu ritmo, lançarei o desejo em lugares desconhecidos de mistério e transparência, lucidez e delírio, tudo e vazio. Ao meu lado conhecerá o paradoxo e tantos outros desatinos que te prometo…

“Sei que vai ser muito bom…
Pois eu tenho uma imaginação fértil e gosto de agradar”.

Neném

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Acordara borbulhando planos no quente dia que se abria em sol azul. Trocou a roupa de cama e se preparava para sair, entregar-se aos afazeres e convites do dia que segue. Tomaria seu café na rua, sábado é dia de tapioca na feira, lhe agradam as pequenas rotinas. Para seu deleite, antes de chegar à porta, fora agraciada com delicadas atenções, gestos que a fizeram sentir-se acolhida, aquecida, querida. As miudezas, para aqueles afeitos às sensibilidades, provocam enormes movimentos. Assim, ela saiu à rua com outro ar, outro ritmo, levava desejos no ventre de seu peito.

Porém, como em geral fazemos nossos planos observando apenas nossas necessidades, esquecendo de considerar as variáveis, é comum que aquilo que se apresentava simples no plano mental, na consumação da realidade transforma-se um desafio. Neste caso o dia se desenrolava um pouco mais complicado do que imaginara, na busca por solução acabara encontrando outras coisas, outras cores para sua manhã, um ar mais denso para sua leveza. Percebia que a graça em que punha os pés era ilusória, pois da mesma forma que as palavras acariciam elas também estalam bofetadas na cara dos sentimentos.

Os sentimentos, seres ingênuos que beiram a demência, são incapazes de perceber o todo da situação, tapados, só enxergam o que no instante acalenta, e projetam fragmentos de gestos para criar a obra de sua própria realidade: castelo de ilusão. No alto do castelo, em torre de marfim, fora instalada a princesinha que nesta manhã brincava de suspirar os novos ares. Por bem ou por mal, uma intuição mandava hesitar na entrega, e zombava de tal princesa.

A ordem do dia exigia uma solução, ela não queria ser inconveniente, mas em alguns casos favores são pretextos para outros reais desejos, e como estava leve respirando o ar do alto da torre, a vontade gravitava nua no peito, não havia gravidade que a impusesse peso. Mas veja bem como a ilusão procede, o ar alto e fresco da torre em um primeiro momento parece o céu, e no instante seguinte asfixia, descobre-se que não é possível respirar em tal altitude. Assim, a princesinha, a neném de libido da torre de marfim, em poucos segundos foi sufocada, violentada pelo vazio, o vácuo consumiu seu corpo frágil. Transformou a fantasia em caos de angústia, despedaçamento, o mundo gira e ela cai. Ingênua, esquecera seu lugar, de repente sente que vulgaridades invadem seu leito, o escárnio do faz de conta escarra em suas pretensões, ela é lançada para o chão nevoado, instável. Olha-se no espelho e encara a outra que é. Sente-se falsa, mentira de fábulas fazendo pose de respeito. De solitude em solitude à solidão.

Assistindo esse revés do dia, ela que se levantara no ensejo de seus planos de sábado, sente-se enjoada, já não é a mesma de um segundo atrás, abortara seus desejos. O peito ficou oco e os problemas continuam sem solução, a hora passa e nada se fez além do café, e já se beira o almoço. Levanta-se de sua momentânea inércia, o dia aqui em baixo está ainda mais quente, porém, agora o seu azul é da altitude do céu, frio e rarefeito.

Promessa de sábado

Se preparem… Estou chegando! Vamos marcar um encontro, mas não só uma reuniãozinha de meninas. Quero mais!!! Um encontro acontecimento, um marco! Faço um convite à revolução! Revolução do/para nada!!! Um elogio a loucura à moda de Erasmo, uma proclamação ao ócio, a exaltação e sacrifício do tédio.

Vamos usar açúcar como heroína, beber vinho como bacantes, fazer pactos pra eternidade do agora. Vamos falar frases desconexas, gozar da nossa histeria, conversar sobre sexo como ninfomaníacas. Vamos escrever manifestos feministas, fazer fofoca, ser florzinha, dizer que eles devem fazer a corte e abrir a porta. Podemos fundar uma religião, um partido, uma seita para durar um dia. Vamos fazer poesia sem rima, subir em cima da mesa e cantar desafinado comendo brigadeiro. Vamos fazer acordo com os radicais livres para não ter que pensar em velhice. Respiro um ânimo de acontecimento, uma vontade de contraditório, desejo de paradoxo.

Quero criar conflitos de idéias, dizer sim e não aleatoriamente e as convoco para este feito, vamos conquistar o nada e aceitar o vazio… e tudo isso nesse sábado!

Vulgaridades

Enjôo, tosse de cão, estômago revirado, dias tortos de escárnio e gozo. Restos pelo apartamento, tarefas postergadas, louça acumulada, barata na xícara de leite. Parte de mim se afoga e o corpo insiste em vida. Energia sugada, vulnerável. Apequeno-me frente à brutalidade e à grosseria. Animal recuado. Quem na intimidade não é frágil? Carência, demências, grande bocejo pelo que se esvai. Silêncio! Escute. O que foi isso que caiu?

Dias, horas, mas um tanto de tempo, me aborreço e finjo que deixo, de outro lado essa intuição que diz: afaste-se. Trago pensamentos em fuga, no peito, bem dentro da cavidade do pulmão, fumo tudo que inflama, e me sufoco nessa tosse rouca que não se acalma com nenhum xarope. O doce embrulha meu estômago e eu vomito todos os dias vividos desse humor azedo. Deito com pijama de algodão, meio corpo coberto, meio descoberto, fecho os olhos e já nem sei o que espero.

Descaminhos

Tinha tantos planos e de tantos nenhum deu certo, por isso afirmo: não hei mais de fazer planos, entrego-me à obrigação que se acumula em minhas asas e pesam meu desejo, deixo-me conduzir nos braços certos e retos dos deveres, sem prazer e dispersões, se a vida não se faz só de sentir, é necessário dar as costas para o imediato, para esse gozo que escorre e depois arde como ácido em ferida purgada, me recolho ao neutro, assim não há desencontro, permaneço em mim, pois já cansei de me dar e me perder.

Tantas palavras que digo para me convencer, endurecer meu espírito roto e amolecido, já que não tenho nada de heróico, tento tapar meus ouvidos para não me deixar levar pelos argumentos de sereia, e continuar seguindo esse caminho de desvios, feito de idas e vindas, estou em dois lados: viajo e teço mortalhas, mas tudo desfaço nessa busca pela pátria que nunca tive.

Pequenos gigantes gestos

-A Ana-

Graça solta em felicidade faceira. Imersa em tempo grave, preocupações e aflições de sobrevivência, em baixo deste céu que insiste em se fazer teto cinza, fora tudo que sufoca e impõe pressa, aqui em meu íntimo, no pedaço de mim que reconheço mais eu, sou tomada de repentina leveza. Transborda o peito tamanha ternura, e a felicidade abundante encharca os olhos em sorriso de lágrimas aquecidas pelo afeto. Em meio a tudo que aflige e as pequenas tragédia individuais, sinto a vida pulsando plena, sinto a presença do outro que me faz querer mais vida, a amizade dessa moça que, repleta de sutilezas, transmite força e delicadeza.

Seda crua

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Escrita mansa, retrato de sentimentos que se recolhem em silêncio, delicados véus de seda que não dançam mais ao vento, agora se dobram sentindo o roçar de suas faces, sobrepondo-se delicadamente. Um recolhimento necessário, sem cor e com barulho brando de chuva, lágrimas que tocam e escorrem as folhas das árvores, acentuando um cheiro de verde novo.

O olhar percorre o horizonte e leva o corpo a outros lugares, para o alto, no teto do céu, nas paredes nevoadas desta montanha emoldurada em minha janela, lá de cima alço vôo com outros pássaros e sinto o tecido do vento roçando em minhas asas, como véu de seda. Passeio por esta seda que guardo e que em mim se recolhe com outros tantos sentimentos.

Retrato de uma insônia

No meio da noite sonhos me põem em sobressalto. Perco o sono! Desperta, consumo as horas desenhando caricaturas de meus sentimentos. Tentando tecer sentidos com fiapos de cenas oníricas. Agarro-me a todo o tipo de imagens e idéias e nem por um instante deixo minha cabeça descansar livre de pensamentos. Como os sonhos recusam meus convites, aproveito a ocasião e improviso uma festa. Convido todos os entes queridos e os desafetos, ninguém é barrado na celebração de minha insônia.

Aproximo-me de cada um e lhes digo minhas verdades, faço diálogos, ouço suas possíveis respostas e de meu lado exponho tudo que me é próprio recolher ao silêncio. Concentro todos os melhores momentos em um só instante. As emoções, experimentadas de forma homeopáticas, se agrupam e fazem um caldo espesso, concentrado, que eu bebo de um só trago. Embriago-me nesta noite de insônia com overdose de lembranças, passados e futuros.

Faço planos para a vida fora da cama, crio absurdos e delícias e ao levantar dobro tudo junto com o pijama e guardo em baixo do travesseiro.

Adâmica

Tenho pensado muito, vagado o olhar nos cantos de parede, fixando a atenção em pensamentos circulares, me pondo em surpresa com o banal, minha calma este dispersa como poeira suspensa no ar. As responsabilidades me sussurram uma voz rouca, quase inaudível, e eu me faço permissiva com as vontades deste novo tempo. Muita coisa mudou e não cheguei a elaborar os acontecimentos, simplesmente os sinto como choques fragmentados, sei que esses fragmentos perpassam linhas de conexões em minhas experiências, mas ainda não tracei nenhum contorno, apenas flano nesta profusão de tudo em mim. No mais, pressinto que estou feliz, de uma forma estranha, que não conheço. Nomearei isso de felicidade aflita.

Trilogia ébria (3ª): RUINDO UNHAS/ Bebedeira em mesa redonda/ Pequena tragédia

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Ruindo unhas

Sabugo cavado, já não tenho unhas, Paranóia consternada, instante de aflição, assua o hediondo e é tudo só fragmento, quanto mais absurdo, ainda mais insignificante. Álcool, sono, lapsos. Os excessos me roem pensamentos, pele e articulações. Sinto os ossos latejarem e insisto na ruína, tudo tão nada e o que sobra é pouco. Corpo e pensamento se confundem, posso garantir que algumas de minhas idéias vêm das pernas, coluna, unhas e outros cantos, até os cabelos sabem coisas. E sinto dores que, bem sei, não são do corpo.

Trilogia ébria (1ª): BEBEDEIRA EM MESA REDONDA/ Pequena tragédia/ Ruindo unhas

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Bebedeira em mesa redonda

Sabugo cavado nos dedos, amargo na boca e vontade de algum excesso. Afluxo de aflição encharca os lençóis. Perco as medidas, mas tudo beira o hábito. De tanto já não sinto, observo de fora todo esse movimento. Silencio, empalideço e congelo. Uma latência induzida, o coma que espera o mal passar. E passa? É tudo movimento, com paciência o tempo opera, às vezes basta uma tarde e já me faço alegre. Humor transitório. Confesso que temo, mas como ter medo disso que se é? São piadas estas verdades, digo que sou para ter em quê acreditar, um anestésico para sofrer menos, mas tudo é dor… até o prazer é também dor.

Deposto e Porvir

Volto para casa e me debruço na janela do fim do dia. Daqui de cima observo as monstruosas preocupações que se levantaram comigo, e fizeram companhia no café da manha. Agora são só cisquinhos, já não tiram meu sono, nem confundem o pensamento. As preocupações passaram e na despedida eu corro pra janela e aceno sacudindo um lencinho branco. Para tudo sempre tem um tchau.

Há tantas companhias que gostaria de jogar pela janela, e com o peito leve me despedir fazendo tremular lencinhos. E para todas as companhias depostas, há tantas outras que me dariam enorme satisfação em dizer: Sejam bem vindas!

Ocupando e se deixando ocupar

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Um acontecimento simples, uma passagem ordinária na cena humana. É nesse tom que pretendo mostrar o caso. Sim, é bastante conveniente imaginar que os acontecimentos que fogem à ordem são um lapso de exceção, como um evento sensacional que beira o místico, regido por forças ocultas e pontuado por dramática música de fundo e luz espectral. Mas de fato tudo é simples, as paixões escorrem naturalmente e não há razão nisso. Os efeitos sensacionais são, posteriormente, acrescentados pela nossa necessidade de dar sentido a isso que lembrarmos e contamos ao outro. Por mais que me previna de fazer uso de tais artifícios, ao escrever minhas impressões, estou acrescentando efeitos ao caso, dando cores ao preto e branco do banal, mas todo meu esforço está em assumir minha parcialidade, pois, ao invés de falar de verdades, quero abrir interpretações no real, criar correspondências entre o que há em mim e o que estava lá.

Eu estava lá, e o momento era agradável, tudo se fazia bom. De repente, uma figura fez sentir sua presença, um homem que parecia bem saber de suas intenções, e eu, como me é natural, colaborei passivamente com seu desígnio; tendo a me admirar com as iniciativas espontâneas, talvez por sentir em mim a falta dessas disposições. Sem mais rodeios, dou início à cena, pois de fato era uma cena, um teatro que este homem oferecia e para o qual convocava.

Percebo que não tenho um nome para oferecer, mas isso não chega a ser um problema, o nosso herói não é do tipo trágico que se imortaliza em um nome, diferente do Odisseu que prefere sofrer a ira divina a se passar por ninguém, o nosso herói se faz moderno, apaga seus rastros e qualquer Zé lhe convém. Então, Zé chegou em casa depois de três dias de cerveja e cachaça, como tantas outras vezes chegara. Não disponho de muitos detalhes reais, pois conto a partir de lembranças ébrias, como se me fosse permitido invadir a cabeça de Zé e, com olhos azuis de estrangeira, olhar sua graça e miséria. Sei bem do fracasso do meu intento, mas não disponho de outros meios, só me é dado ver o que ele viu a partir de meus próprios olhos. Como não há outro jeito, se contentem com minha versão e me deixem contar o que vi.

Zé chegava numa hora incerta, podia ser manhã ou tarde, pois quando o céu se faz cinza o dia parece não ter hora, e o céu estava cinza igual à cara seca de Zé. Antes de entrar no barraco a vizinha, Dona Judite, (curioso, me dei conta que esse é o único nome que apareceu na história do Zé, por isso fiz questão de conservá-lo) gritou qualquer coisa, a qual ele respondeu com a primeira ofensa que brotou em sua boca vazia de dentes. Adentrou em casa e mal sabia onde estava e o que fazia ali. No pouco espaço de dois cômodos sua mulher o fitava com olhos de cólera, e inaugurou o diálogo entre eles: “Mas você é tão ruim que nem pra morrer presta”.

Essa cena, de uns meses para cá, era bastante comum. Depois que a mulher engravidou, eles resolveram morar juntos, calhou de um amigo viajar e pedir para Zé tomar conta do seu barraco. Em pouco tempo o afoito desejo sexual que os unia se diluiu, o gozo viscoso se fez mijo. Antes a mulher o acompanhava no copo, mas deixou de beber com o nascimento da criança. Um bebe minguado de 6 meses que, na cena narrada, se encontra no colo desta.

A briga ocuparia longas horas do tempo vazio, porém dessa vez por castigo, destino ou azar (dependendo das crenças do leitor), Zé empurra mulher e filha com toda força de sua embriagues, as duas são lançadas para outra extremidade do pequeno barraco. Zé apenas se recorda do estrondo dos corpos contra a parede de tijolo e depois silêncio. Um silêncio que pareceu durar um tempo descolado do relógio e até hoje ele ouviria esse silêncio se não fosse o grito gutural que ecoou do ventre da mulher, esse sim reverbera na cabeça de Zé e é deste grito que ele foge.

Foi assim que Zé reagiu, ao ler nos olhos da mulher a morte da filha, os pensamentos deste homem se embotaram de vez, não se sabe há quanto tempo se deu o ocorrido, o certo é que desde então Zé vaga de um lado para outro, às cegas e sem direção. Fugiu como Édipo depois do crime de incesto e parricídio, no seu caso de infanticídio, o incesto talvez se desse se a criança sobrevivesse, mas essa seria outra versão da mesma história ordinária e repetitiva, outro fragmento que ouvimos de boca aberta, piscamos os olhos e esquecemos.

O teatro de Zé terminou assim como começou, entrecortada por outras vozes no meio da rua, nessa rua que, antes lugar de mendicância, se fez palco de revolução e adolescência. Lá ainda estão as vozes ocupando praça com escárnio e desdém aos mensageiros da ordem, não se sabe por quanto tempo ficarão, mas o que importa é que algo acontece, alguns passam e sentenciam: efêmero! E estão certos, pois em tempos líquidos o que é pra sempre? O que há além do ordinário? Não é a história feita de diminutos? Sendo assim, a revolução se dá em pensar o poder das insignificâncias.

Nesse cenário de praça, Zé se apresentou artista, mostrou nas suas folhas sujas o roteiro de seu espetáculo, exibindo uma felicidade de sorriso desdentado. Felicidade que poucos ousam, mas que nele cai muito bem, no conjunto daquele corpo coberto de trapos e olhinhos de loucura. Zé ria gargalhada possessa, de repente punha-se sério e esbravejava as falas de seu texto. Havia delicadeza e violência em seus gestos, uma graça de quem sabe esquecer, e esquecendo tem a possibilidade de lembrar e contar sua história. A cada vez a história é outra, outra da mesma de tantos “Zés”, um contar inesgotável, e que aquele homem sabia a necessidade de continuar contando.

Tudo é constante repetição, mas na repetição se dá a diferença. Que fique claro, não importa saber o que se deu de fato, e o que é apenas imaginação da minha vontade de loucura. Não há nenhuma certeza no que digo, e sendo tudo mentira é ainda mais verdade, por isso deixo que Zé artista grite em meu rosto suas palavras imundas, já que seu gesto, sendo cheio de intenções, é tão puro, da forma que a pureza deve ser: ambígua e rasgada de sentidos.

E…

Um elogio às reticências…

Essas que dizem sem dizer, que apontam para aquilo que o verbo não apreende… Pontuam continuidades, fazem convites, discordam, aceitam e duvidam… Fazem a imaginação flanar em seus três pontinhos… Três Marias na constelação da linguagem, Três graças que velam e mostram, confessam segredos e com sorriso pontilhado o calam…

Prometem que há algo a mais… uma sobra, uma falta, um porvir… Nunca se sabe… As reticências abrem camadas em nossas frases, alargam os sentidos, rasgam desvios nas direções do que é dito, e quase tornam possível toda profusão do pensamento relampejar em uma frase…

Meio conto – Sonambulismo

Do pouco que ela lembra vem sua imagem diante do espelho escovando os dentes, não sabe ao certo quanto tempo durou este gesto, podem ter sido segundos ou quase meia hora. Depois, lembra que estava na rua, porém não recorda como saiu, mas estava lá, ainda próxima de casa. Rodou os quarteirões também por um tempo incerto, parecia ensaiar contato, planejar encontros, mas eu, como vejo de fora, pouco posso dizer sobre suas intenções, se é que de fato havia alguma, poderia ser apenas um movimento aleatório, ao qual é minha a necessidade de atribuir um sentido.

De repente ela parou e fez algo que não consegui perceber, pequenos gestos que me escapavam de onde me punha a observar. Depois disso seu rosto se fez diferente, de ansiedade e indecisão, passou a apresentar alívio resignado, uma esperança despedaçada. Continuou vagando, mas agora estava claro que não sabia para onde ir. Neste caminhar perdido ela tomou o rumo de casa, eu continuei observando-a e acho que sabia que estava sendo seguida, mas era indiferente a isso, estava absorta em pensamentos, tinha ímpeto de fim, de retorno, já nem sei… Ela tudo esqueceu e eu pouco me lembro, apenas fruía um fascínio por seus gestos. Desculpem-me, já não sei o que dizer, de alguma forma aquela presença me contagiava, havia algo nela, uma falta, uma sobra, ela era a um só tempo previsível e inconstante.

Dos lapsos que lembro percebo que ela reproduzia gestos como se refizesse uma antiga cena e sua cabeça latejava, era óbvia sua dor, talvez sentisse os reflexos de uma queda passada ou a perda do que nunca teve. De meu lado, me perguntava: o que ela é? O que há por trás de sua máscara? Em suas palavras havia pouco entendimento, nesse absurdo eu quase ria e sentia o rosto encharcar, do que digo pouco sobra, do que sobra pouco sei.

Pôs-se novamente diante do espelho, dessa vez ela me olhava, me lançava seus olhos afiados e melancólicos de embriaguez. Olhava para si e me pedia algo que eu não posso dar, pelo simples motivo: Falta-me, não tenho isso que ela me pede. Mas, há muito esperava que ela me pedisse.

Passarinho

Palavras em canto, outro som, vontade de fé e crença, um saber alegórico, algo que abale o monopólio da razão. O sentido lógico sufoca, violenta, torna árido, angústia de vazio. É necessária outra linguagem, algo que rompa o senso, salte as medidas, seja forte sendo malemolência, seja sério na gargalhada possessa.

Uma linguagem de santo, mandinga, dança cigana, fumo e sal, graça de sereia, oferenda de alecrim e anis, pétalas e limão. Que o pensamento ecoe como som de tambor. Que seja terra e etéreo, visão de olhos revirados, olhar de dentro, tudo vêem! Iluminam luz na ponta da vela. Quase um assombro, mas nada mágico, apenas o simples visto diferente. Embriagues guia, é outro e é mesmo, movimento ritmado, quadris, braços, brancos. A palavra é pouca para tanta imagem, corpos em transe, explosão de si em contato com o outro. São horas e instantes, o tempo do extraordinário não é cronológico, algo se passou, mas para isso não há verbo.

Minhas passages

Uma Palavra
Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra

Pai

Desde criança fui instruída em assuntos de mitologia, e entre os deuses e minotauros, encantavam-me os heróis , estes seres de notáveis feitos. E de todos tinha um que sempre foi meu favorito, não falo de Aquiles, nem Agamenon, até gosto de Ulisses, mas pra mim o maior é o Airton. Herói que cria suas próprias ilhas, constrói terras no mar, ergue impérios do nada, por pura vontade, pelo desejo de viver e ser movimento. Dá a volta ao mundo e gosta de estar em casa.

Airton é grande, é delicadeza e direção. Inspira ação. É quase inquieto, mas mesmo os heróis não são perfeitos. Nele percebo o familiar e o mistério. Estranho-o e com ele me pareço.

E eu o amo, e como não amar homem de grandezas, peculiaridades e sentimentos, herói tão humano, meu pai.

Um dia qualquer

Dia estranho, cheio de goles de café morno. O tempo simplesmente passou e eu não sei bem se fiz algo útil, só estou convicta que não foi bom. As tarefas prescritas para manhã engoliram toda minha vida deste dia, como é desconfortante terminar a noite assim, sabendo que este hoje não fez diferença nenhuma, para nada. Apenas passou o tempo, desfrutei de minha companhia que contagiava tédio cinza. Antes tivesse ficado só, não envenenaria o outro com minha melancolia amarela e meus humores enfadados.

Já que este dia mascou, me despeço logo dele, o encerro no sono leve embalado pelas doses de cafeína da janta, durmo como quem se resigna a uma obrigação.

Sintonia fantasmagórica

Há uma hora. Foi nesse tempo que comecei a sentir algo estranho vibrar dentro de mim, se instaurou o desatino, a falta de calma e de amor. Comecei a fazer planos nos quais, bem sei, é inevitável que me perca, e criei todo tipo de justificativas para amenizar os disparates e fazer coerente a loucura. Já me convencia, tomava ímpeto de decisão e me lançava nos braços violentos e inefáveis do instante.

Mas, por alguma coincidência bizarra, percebi sinais que me desaconselhavam na minha repentina decisão, tentei desconsiderá-los, no entanto algo insistia. Sobre os meus planos se apresentavam outros mais amistosos e amigos. Por fim dei ouvidos a isso que, por crendice ou gosto pelo expressionismo alemão, chamei de sinais. Logo senti que sorrateiramente se aproximava de mim uma intuição e quando a encarei, ela me sussurrou a causa de meus enganos.

Fui verificar, minhas mãos trêmulas faziam os procedimentos, tudo se abriu e as letras brilhosas de chofre invadiram meus olhos, meu equilíbrio oscilou e meus pés penderam acima do chão, um frêmito invadiu meu corpo, e como alma penada sumiu em névoa de pensamentos. Na mesma hora que eu desatinava em nostalgia, se passava algo do outro lado, algo que, ao certo, ignoro o que seja.

vindovinho

Vejo uma vaidade efemera, uma vaidade que sei vai acabar proximo. Mais resguardo, esse efemero a cada mÊs com tamanho zelo e nem sei o quE dele espero: ratos , fatos, gemeeos, talvez Nada . Vaidade, tante como a miniaha não abinanca, sÓ vislubre e o pqo com cqafe se sustenta mas e tão pOuco que nqa minha fome, digo não. Lados, lladdos, lados tentando ouvir o hj mas nem sei. ObrigADO.só me chegaM Rebotalhos e já tenho desejo de partir. Riquezas pequenqasas . riqueseas de dias que arrojo como durar já nem sEI. como será o próximo segundo, escrevo esperando o próximo toque . me olham, olham agora, lÁ do aviao, dessses enganos que vivo e fantasio . fantasio já nem sei o que quero . Quero voltar pra mim divagarinhio , diferente , o mesmo , mas rentar ser aqui. Já nem sEI. no Way … mais um vinho , brAnco ou tinto…

Descodificação de escrita ébria
(Como Dionísio me fez publicar, Apolo pediu que fosse legível)

Vejo uma vaidade efêmera, uma vaidade que sei vai acabar próximo. Mas resguardo esse efêmero, a cada mês, com tamanho zelo, e nem sei o que dele espero: ratos, fatos, gêmeos, talvez nada. Vaidade tateante como a minha não abinanca (?), só vislumbre. O porquê com qualquer fé se sustenta, mas é tão pouco que na minha fome digo não. Lados, lados, lados tentando ouvir o hoje, mas nem sei. Obrigado. Só me chegam rebotalhos e já tenho desejo de partir. Riquezas pequenas. Riquezas de dias que arrojo como durar, já nem sei como será o próximo segundo, escrevo esperando o próximo toque. Olham-me, olham agora, lá do avião, desses enganos que vivo e fantasio. Fantasio e já nem sei o que quero, quero voltar para mim, devagarinho, diferente, o mesmo, mas tentar ser aqui. Já nem sei, no way… mais vinho, branco ou tinto…

Exercitando o belo

Comunicamos porque contamos com o consentimento.

Areia de sal, gosto de manhã, frio de sol morno, pele solta, vontade de só e mais, silêncio de gaivota e mar. Encontro inesperado com a forma que se dá, olhar desinteressado nos desenhos de espuma sobre o brilho do chão encharcado. Os sentidos transbordam nessas imagens, tão clichês, de um dia de praia. O comum toca minha imaginação e entendimento, tal como experiência extraordinária. Algo novo, sentido pela primeira vez, um belo natural que me aproxima de mim e do outro, um prazer que transmuta meu instante e deseja comunicar, quer ser meu e de todos.

Modernidade atual

Horas tedientas
Sapato machuquento
Ungüento para apatia
Repetição do mesmo
Palavra infame e lenta
Imensa aflição
Café amargoso
Sutil violência
Vacilo

Pressa líquida
Dentes mastiguentos
Doce de ansiedade insossa
Efêmero novo
Espera de nada
Ócio lamacento
Transformação acalentada
Fracasso no intento
Anistia niilista
Sem tempo
Oco
Vazio
Lar

Como?

Vida frágil descasca, sucessão de dias que de repente ponto. Casca quebradiça, surpreendente previsível, frio funesto, existência precária e instável do tempo gasto, puído, desbotado pelo uso ou não uso. Tudo é só instante. Às vezes isso é pouco e não faz sentido.

O que entendi do Godard

A escrita: compilado de idéias arranjadas em uma unidade transitória, mudamos a ordem e os sentidos são outros, o arranjo das palavras influencia a interpretação.

Constantemente me copio, recorto o que disse há tempos atrás e colo em outro contexto. Não é necessário aspas quando o autor cita a si próprio? Em frases antigas costuro novos significados e assim sigo, sempre nesse retorno que me lança à frente. Não poderia a cada começo esquecer o que foi dito e partir do ponto zero, como sucessivas inaugurações?

Talvez… Mas algo sempre me impele ao passado. Pode ser covardia, medo de encarar o vazio, a tela em branco, o silêncio antes de toda palavra. Ou pode ser que simplesmente não exista o início, o tal ponto zero. A cabeça é redonda, o pensamento é circular. Onde fica o início de uma esfera?! O vazio tem contornos e a pobreza é feita de nobres ruínas, palavras soterradas sobre palavras. Tudo que há para dizer está calado em mim e jamais conseguirei esgotar o resgate, dar voz ao sublime silêncio. Todo “não dito” é potência e fracasso. A única certeza é continuar insistindo, por isso sigo e repito, repito, repito…

Pele que acaricia os olhos

Homens de força, homens de cor. Invade-me o desejo de oferecer-lhes algumas palavras. Um pequeno elogio a estes corpos que vejo passar e aprecio calada, eis que é chegado o momento de confessar e faço com a cobiça de um gracejo de rua.Meu pensamento assobia para estes moços de peles reluzentes ao sol,neles o suor faz brilhar os contornos dos músculos rijos. Seus movimentos são de um belo austero e leve. Mãos firmes de toques pontuais, arrebatam em delírios e devaneios a imaginação que os observa em seus manuseios.

Que contraste delicioso, sorriso largo e maroto com os traços viris deste corpo. Em seus olhos é possível sentir toda a voracidade fértil de seu ser. Seus pés o conduzem no ritmo justo entre dor e prazer. Então passe por mim, homem negro, e instigue todo este mistério que entretém meus olhos, fascine meu imaginário das mais voluptuosas lendas ao seu respeito.

Hábitos

Tem algo em mim que é solidão, canto de grilo, silêncio no rosto, olhar imóvel em cantos de parede, corpo inerte deixando que todo movimento seja do pensar… Meu próprio acontecimento me completa. Sim, transbordo uma tristeza morninha, me recolho em abrigo de coberta e livro. Entretenho minha existência em fazeres inúteis, encapo caixinhas, escrevo diário, pinto o rosto pra mergulhar na banheira de água fria, coleciono ingressos e insetos, desenho curvas de linhas, faço cerimônias de chá. Caminho na praia, volto e se tenho vontade de experimentar meu paladar, preparo banquetes encharcados de vinho, sessão de filme com passas, jantar à luz de vela e canto alto, danço no meio da sala e rio sem saber o porquê. Invento diálogos, tratados, teses sobre tudo e nada, passo horas discutindo comigo e esqueço de dormir.

E se de repente estes gestos que começam e terminam em mim parecem solitários, venho aqui e conto tudo, pra nem sei quem, espalho aos quatro ventos, rosa da internet. Imagino interlocutores de meu gosto, desdobramentos de mim, a eles invento respostas, intermináveis conversas e já não parece só. Tudo tão bom e simples.

Licença poética

Nem tudo que se diz é verdade. As palavras desta mulher não estão aqui para informar as notícias íntimas de sua autora. Por isso, os próximos que me lêem, não se aflijam, poupem preocupações. As tristezas, angústias e dores são dosadas por mãos generosas, descompromissadas com o real, são mãos artesã de imagens que têm como matéria-prima um tanto de imaginação.

Mas também não se zanguem, não se sintam enganados, se preferirem sigam pensando que os sentimentos mencionados aqui possuem dono, pois isso também é uma verdade. No momento que as palavras são escritas elas são sentidas por esta que escreve, para logo em seguida serem de quem quiser. Trata-se de sentimentos sem dono.

Esta mulher é de infinitas palavras, não se define em uma idéia ou frase. São muitas as suas palavras, e todas, sendo mentiras, são ainda mais verdades.

Morte cotidiana

7 centímetros de asco, um frio nauseante arrepia meu corpo, mancha escura em movimento. Nojo! Falo comigo na terceira pessoa, com desespero tento instaurar uma calma, tudo está em desordem, caos de dupla face. Gritos histéricos ressoam no corredor, ouço passos, há pessoas do outro lado da porta, penso em pedir socorro. Ensaio a cena e o ridículo me aconselha mudar de idéia. Aceito o conselho. Sigo conversando comigo, pergunto sem cessar: “o que faço?”, ao mesmo tempo conservo vigia nos movimentos do pequeno monstro. Fitamo-nos, por um instante tive certeza que meu olhar foi retribuído. Agora, refletindo melhor, acho que ela também estava assustada, vinha cambaleante ostentando todo seu tamanho, e a agitação na escolha de minhas armas a fez sobrevoar o cenário do apartamento. Gesto que me apavorou, mas também me deu decisão para agir. Era eu ou ela e não havia mais ninguém para por fim a este impasse.

Avanço com ímpeto de morte. Mas no derradeiro momento acho que a precariedade da vítima fez sinal à minha, decidi não matá-la, mas recusei a hipótese de uma comunicação entre nós, preferi alegar que simplesmente não queria ver o caldo asqueroso de suas entranhas. Sem dar conta da perversidade de minha escolha, depositei um peso sobre seu corpo e esperei que a morte por si só terminasse o serviço. O que me deu tempo para refletir. Meu olhar estava absorto na imagem de seu ventre sendo suavemente esmagado, por um instante me senti uma espécie de carrasco fazendo o que é necessário, dizimando um ser pífio, de pouca monta. Embriagada por este fascismo pensava em minha condição, em minha força e tremor, algo naquela criatura lembrava a mim mesma, era parte de mim que agonizava na louça fria.

Já era tempo. O processo deveria ser finalizado, a ordem do dia impunha novos sacrifícios. Descobri e ainda estava viva, novamente tive impressão que ela me olhava, a moribunda com o corpo levemente inclinado para cima me acenava com seus braços de inseto clamando por misericórdia. Mas não poderia restituir-lhe a vida, nem era esse meu desejo, assim como não posso regatar os rebotalhos de eu que já não me servem mais.

Envolvi aquele corpo ainda com vida em uma mortalha branca e dei descarga.

Citadinos e frenético alarido

“As cortinas transparentes não revelam o que é solitude, o que é solidão” (Lobão, Essa noite)

Falatório, tantos corpos ocupando o mesmo lugar, o que buscam em uma noite? O que afogam em suas bebidas borbulhantes? Gestos ocos velados em cortina de veludo azul. Imersa nesse tanque de energia, comungo dores e gozos. Deixei de ruir unhas, agora elas crescem arredondadas e as tinjo de café. Vejo vôos oscilantes, incertos, as cores das roupas se mesclam nas peles, cheiros diversos, olhares afinados, mas as direções são incertas. Como a vida é frágil… O que há para comunicar?

Abismo azul, duas esferas redondas que tragam tudo. As amarras não bastam, o mastro resvala e os sentidos se esfarelam pelos argumentos de sereia. A certeza é nó em fita de cetim. Unhas negras rasgam o real. E se não há nada, o que há para fazer? Um imenso tudo colorido de nácar e celeste blue.

Manual para críticas ou mentiras sinceras

“Dificilmente encontramos pessoas de bom senso, a não ser aquelas que concordam conosco.” La Rochefoucauld

Não importo que me engane, contanto que diga o que anseio ouvir, mas seja convincente. Misture alguma verdade às mentiras que oferece. Deixe-me acreditar, fruir de palavras lisonjeiras, palavras feitas para iludir. Não distingo realidade de faz de conta, então me conte que gosta, que muito aprecia e se não for incomodo preste algumas reverências. Para que não desconfie ou acomode polvilhe inteligentes críticas, comentários pontuais e afinados com meu pensar. Houve uma época em que quis o autêntico e então a gravidade desanimou, hoje basta voar.

Fronteira do meu tempo

Então eu pergunto: é muito ruim de um lado dizer apaguem os rastros e de outro me esforçar em construir pistas? Misturar vidro e veludo, frenesi de cidade e canto de grilo? Proclamar o desapego e fazer coleções de suvenir? Assumir o precário e o transitório, mas exigir garantias de segurança? Deixar-me seduzir com o novo, e desejar que ele dure pra sempre? Vestir-me de antiguidades, usar os óculos da minha vó e dizer que é retrô? Ser permissiva com as vontades efêmeras, dar vazão aos sentimentos volúveis, argumentar que o amor é líquido, mas me refugiar no lar da rotina e ter saudades de casa? Suspirar pelo incerto e até fazer pacto como o derradeiro, mas só dar a mão ao constante, direito e que inspira confiança? Simpatizar com o atual, discutir o contemporâneo e na estante só convidar os clássicos? Ter gosto eclético e aberto, mas só ouvir um tipo de música? Dizer que o cinema é a arte que corresponde à percepção atual e na era do 3d estar entusiasmada com filmes em duas cores?

Não sei… são só perguntas que, quando respondidas, delas seguem outras. Porém, suspeito que não seja nem dentro, nem fora, é preciso me equilibrar nas fronteiras, em uma tal tensa justa medida, onde se experiência o conflito. Neste meio! Meio que nunca sei onde fica…

Minhas Passagens

“Foi assim que comecei a seguir essa direção de que nunca mais pude afastar-me: transformar em quadros, em poemas, todos os motivos das minhas alegrias, dores, preocupações, e estabelecer a ordem dentro de mim mesmo, seja a fim de retificar minhas idéias sobre os objetos exteriores, seja para fazer meu espírito voltar ao repouso no tocante a essas coisas. Esse dom me era mais necessário do que a ninguém, uma vez que por natureza eu era incessantemente arremessado de um extremo ao outro. Assim, pois, tudo o que tenho publicado são apenas fragmentos de uma grande confissão, e estas memórias não representam mais que uma aventurosa tentativa de contemplá-la”. (Goethe, Memórias: poesia e verdade.)

https://mulherdepalavras.wordpress.com/2010/08/20/e-para-que-um-diario/

Ménage à trois

De uns tempos pra cá, percebo que meu corpo perdeu o calor próprio. É necessário fazer uso de cobertas, agasalhos, edredons e toda sorte de artifícios para amenizar este frio funesto. Frio que a cada noite deita-se em meu leito como fiel companheiro.
E ele não vem só. Em minha cama formamos três: eu, o frio e a solidão. Dama corpulenta, toda vestida de púrpura! Oferece-me seus frígidos seios e me asfixia com suas estranhas carícias. Neste triângulo amoroso se realizam minhas mais secretas fantasias de medo. Em frenesi sou transportada a vertiginosos delírios. Sinto secar a garganta com o gosto da solidão que encharca minha boca. Amargos beijos! O frio, no mesmo ritmo, me envolve, toca seus lábios em minha espinha, sua língua afiada me rasga as entranhas.
Conduzida nestes movimentos, transfiguro minhas noites em insaciáveis insônias. E quando a madrugada é pouco, não há tabus para estes devoradores: eles não hesitam em me possuir à luz do dia. Tenho que disfarçar os sobressaltos e conter os gemidos. Neste ménage à trois, vejo-me serva de estranhos amantes.

A arte de ficar em casa

Meus pensamentos vagueiam, giram, giram … os observo brincarem na sala de estar tudo ao redor está calmo, a cortina balança, me conduzo por alguns instantes em seu balé. O vento sopra de leve o meu rosto e como sinto isso! Como me faz bem. Os olhares se fixam nos objetos que estáticos se deixam contemplar, eu os contemplo. Ouço a respiração de minha pequena cadela que dorme soltamente. Meu corpo está entregue ao fluxo de meus pensamentos e seu ritmo é suave como uma melodia. Não há música aqui, apenas sons; passarinhos esparsos, o ventilador, gritos da rua, carros que passam e tudo é ouvido dentro de suas sutilezas e na verdade não escuto nada.
Passeio em um mundo próprio, um mundo dentro de mim, com as cores de minhas lembranças. Realizo sessões de cinema com o passado, as assisto e logo deixo de ser espectadora para interferir nas histórias que me são narradas pelo ritmo da memória involuntária. Reinterpreto fatos e de repente ganho compreensões em mim. Penso coisas que jamais tinha pensado, meus relicários não se compõem como enfeites fixados em lugares determinados na estante da lembrança. Todo meu mundo cá dentro está em permanente movimento. Minha memória é uma festa de família, onde os acontecimentos de diferentes datas, jovens e velhos se encontram e conversam longamente.
Como gosto de freqüentar estas festas, ouço as conversas e sempre saio delas com a visão mais alargada da minha própria história. Neste encontros com o passado, vivo mais do que já vivi. Em tais momentos de recolhimento me modifico de tal forma que me torno outra, sucessivamente outras reunidas em uma só. Se estivesse entregue apenas a vida externa, as ações, precisaria viver uns dez anos para realizar as modificações que realizo em meus momentos de auto-reflexão.
Gosto de estar em casa e fazer isso tudo, todo esse nada de estar solta na rede e saber observar de olhos fechados.

Não Sei quantas almas tenho

“Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei.” Fernando Pessoa

Sempre esse olhar de fora, rimbaudiana, algo em mim insiste nesta sensação “eu é um outro”. Vejo-me sentir, pensar, sofrer. Recolho minhas pistas, lapsos e alguns fragmentos para tentar descobrir algo desta que me habita. Os meus sentidos chegam bem depois do agir, isso quando chegam, tudo é pedaço, me rasgam vazios. O mistério se impõe em meu ser e quase não há contornos para meu eu. O que sou é um acontecimento externo a mim. Confundo-me entre expectadora e personagem de um filme inacabado.Querer, desejo e razão são protagonistas oponentes, na falta de acordo eu me divido em extremos.O meu querer é moça virgem, fantasia e teme, se lança e recua. Meu desejo é esfinge a dizer “decifra-me ou devoro-te”. Já a razão, quando não está enferma, é ditadora. Suas regras obedeço e escarneço.

De tanto desatinar em lados e papeis, ainda topo comigo… Mas, no derradeiro encontro, o que hei de perguntar?

Visão da paranóia

Pressinto dores de estremecer os móveis. Solidões de banho quente, embaraços sem pente. Vejo em sua mão, linhas cortadas, nós de serpente. Na borra do café seu destino se desenha escuro, tingido de negro e preto. E a cigana, do outro lado, já anunciou amores desencontrados. O futuro não garante e a felicidade está de mal.

Ouça o que digo! A rua traz riscos e em casa há fantasmas. Cuidado com os passos solitários e as companhias perdidas. Todo início de dor é leve, mas com o tempo o suave toque atravessa a carne. Amuletos não afastam o que carrega no peito e santos só são bons para os que estão em comunhão. Também não aconselho pactos com criaturas das trevas, tudo que cega ludibria a visão.

O medo é o vizinho que mora ao lado. Por isso, fecha a porta, mas não tranque: Nunca se sabe o que te espera em casa. Atenção com a saúde! Em cada comida mordisca os dedos da morte e todo líquido que sorve é estúpido veneno, o prazer que alucina te condenará aos últimos dias.

E lembre-se, nada de fortes sentimentos. A apatia é melhor amiga, nem conforta nem incomoda. O desassossego dos pensamentos e a ansiedade inquietante são o punhal traidor. Colorem a vida em extraordinários momentos e sorrateiramente a aniquila em ataque cardíaco e aneurisma.

Por isso, não tenha pressa a vida se esvai devagar e se finda de repente, é só sentar e esperar.

Lendo Bukowski na fila do banco

O dia está ruim, penso. Tenho coisas a resolver e preciso ser gentil, rasgo com navalha sorrisos em meu rosto, um disfarce tosco para meu desespero, mostro meus dentes de forma maquinal, dentes grandes e quase brancos. Acho que é o suficiente. Sigo pensando: queria correr para meu canto, me trancafiar e esquecer que existo, mas pequenas obrigações me absorvem e as horas me tragam, tudo parece sacrifício Sísifo.

Não digo prazer, mas qualquer coisa de contentamento, apenas isso poderia sentir. Minha imaginação está seca e árida, não há graça em nada, um tédio cinza rasga meu ânimo. Repito palavras em minha cabeça como um mantra, artifício para não me descolar da realidade. Às vezes, sem querer desconcentro e faço a pergunta que deve ser evitada: Qual é o sentido disso?

Cinza opaco

É a cor de meu ânimo, tudo beira a melancolia, uma tristeza ácida que me corroí as vísceras mais delicadas, os tecidos do coração. Meus sentimentos estão em carne viva, frágeis e inertes. Há um moribundo dentro de mim que morre lentamente, ouço seus gemidos que me causam incomodo, porém eu não o vejo, não o reconheço, mas sinto o cheiro de suas entranhas que já começaram a apodrecer.

O opaco do cinza fere minhas retinas. Tons pálidos, sempre os desprezei! Ai, cruel tédio, meu fiel posseiro, reina dentro de mim e conduz meus atos. Não sou passiva ao teu poder, mas faço exatamente o que queres, sem mesmo que tenhas que pedir. Lanço-me na busca de um belo estrangeiro, um novo novíssimo jamais sentido que me tenha e me seduza com tudo que não conheço. Indolente! Desejo o que não existe e ainda que existisse me seria algo de indiferente.

Reflexos nos olhos d’água

Profusão de imagens, cenas e mais cenas com cor de vinho: azulejo além Tejo, areia esculpida por tantos passos, mar de cabeças em frenesi, desenho feito de sombra, contornos de árvore na fachada antiga, matizes de cores, vidro verde de garrafa, cabelos trançados, pedra escorregadia, “arrombamento de retina”, paradigma estético, áspero de rosto…

Memória de dia seguinte, palavras e imagens que emergem em minha superfície, apetite de horas… tarde de olhar parado que nada reúne, se deixa levar pela profusão de fragmentos. As lembranças mergulham como pedrinhas nas águas de meus olhos, fazem ondas e se dispersão…

Mesa onze

Em um passeio onírico, andava eu lá no suicídio de Benjamin. Assistia como em tela de cinema e, por meio dessa mágica de sonho, já não era espectadora e estava implicada na tarefa derradeira de salvá-lo ou seria também eu arremessada à minha própria finitude. Os meios que dispunha para tocá-lo eram as palavras, porém essas me faltavam, diante a chocante cena me paralisei, os pensamentos se rarefizeram e tudo que saia de minha boca era estranho, esganiçado e confuso…

Precisava mostrar o movimento do tempo, fazer o presente resgatar o passado… mas fracassava antes mesmo de tentar. Ele, que até então ignorava minha presença, lançou-meu um olhar retesado e distante. Estava claro que não me reconhecia. Já era tarde e eu não podia fazer nada. Desviei o olhar para não assistir o fim o engolindo, e na seqüência sabia que eu era a próxima. Acordei.

Mística

Gosto de cerimônias, cultos, celebrações secretas, pactos… Na invenção de novas linguagens levantamos a beirinha da cortina, desvelamos o que, pelo hábito, chamamos de realidade e entrevemos o que se esconde atrás deste continuum nivelador, deste cotidiano.
As regras dos cultos não são as da funcionalidade, mas sim as do mistério, de tudo que escapa ao entendimento, daquilo que não se pode segurar nas mãos. No fundo sentimos que de todo este real, a única verdade que realmente nos toca, é incompreensível, absurda, mas só ela é capaz de fazer vibrar em nosso peito uma promessa de felicidade.

Fragmentos

Escrito em duas mãos: Uma se veste de universo, a outra carrega o céu no peito.

Buenos Aires cheira a carne e tem o céu pequeno. Céu quadrado. Praças de verde e sol, onde se perde e se encontra, ruas, esquinas, prédios de varanda e sacada. Com o olhar distraído na arquitetura, se esbarra em homens de despertar desejos, que passam com suas barbas mal feitas, bem feitas e lançam seus olhares de doce e sabores. E de todos, de cada um, e todos os cantos, gestos e passos… existe um. Um encontro, um instante que faz valer todos, que faz lembrar, transforma a existência em puro sentimento e poesia.

– Posso guardar seu cheiro?

Ela tocou a própria nuca e com as mãos em forma de concha, lhe entregou o seu cheiro. Os olhares se encontraram e se fundiram. Naquele instante se deixou de saber quem se é. Ela apenas sentia uma enorme consciência de estar viva.
Ele respira profundamente seu cheiro e se deixa embriagar dela. E mais do que seu cheiro e mais do que seus poros e pele, mais do que toque, eles já tinham toda uma história de 3 minutos. O não dito comunicava, as palavras eram pronunciadas em pequenos gestos, não havia receio, ela se sentia amada por aquele estranho e ele estava fascinado pela descoberta daquela mulher. Tudo de cada um era novo. Novo e antigo. Conhecidos caminhos sendo descobertos em cada canto do corpo. E esse mesmo corpo foi como porta para o que ela resolveu, por puro desejo, chamar de alma. Sentia que viver era desejar e a alma só se faz viva quando desejante, faltosa, na busca do lançar-se para além. Sem titubear ela se lançava, sentia seu vazio se preenchendo, se vestindo de uma alegria rosada, cor de pôr-do-sol e mistério de noite.

E tudo se fez no agora. O maior presente que os dois tinham.
Os corpos se afastaram, os olhares se transbordaram e se recolheram, um último gesto, último beijo, as mãos deslizaram fluindo o derradeiro toque. As palavras foram “até logo”, mas se sabia que era um adeus. Ela então se voltava para dentro, tentava secar o que fora inundado, precisava dar conta do turbilhão de seus pensamentos, novamente voltava para o seu vazio. A única verdade permanente, que ela sabia sem saber, é mover-se, lançar-se ao mundo e com os fragmentos das experiências criar a si própria.

Hedwig e Vitoria
(janeiro 2011 – Buenos Aires)

Copa de mar

Gosto de morar perto da praia! Parece capricho e é. Quase não a freqüento, meu branco reluzente confessa que tenho pouca intimidade com o sol, o leito da areia não me seduz e o mar visito de tempos em tempos, apenas diante a necessidade de afogar reminiscências e incômodos. Signo de capricórnio com ascendente em touro, sou da terra.

Mas é bom saber que o mar está lá, distante algumas quadras, se vai a pé. A praia é graça, de graça e de nada. Só oferece e doa. É um lugar para ir quando não há lugar. Frente toda questão imensa, o horizonte é maior. A praia também é sem tempo e sem hora, ela não dorme nem fecha, a noite as ondas ressoam como um mantra,cantam convites e nela se vai com solidão púrpura ou companhia de qualquer cor.

Nas ocasiões destas visitas, não fico no calçadão, vou mais perto, mais perto de mim. Sento, caminho e sento pra traçar caminhos no chão e nos pensamentos. A areia fresca abraça os pés e a água carrega o que é excesso. No bolso apenas a chave da casa desse agora, e trocado para o coco. Despida de pertences e documentos, não vou contra o vento, na madrugada só esse ar fresco de maresia. E eu caminho sem pensar em chegar, só pela vontade e necessidade de caminhar, e o manso deleite de estar aqui

Identidade

Um corpo de pensamento. Organismo de tênis, uma mulher de calça, olhar de óculos, balanço de saia, um homem sem pênis. Certeza de dúvida, medo de coragem. Ser única. Na solidão a melhor amiga. Beleza invisível, nu vestido. Palavra calada, letras brilhosas, luxúria de idéias, estante de livros, cabelos em cachos, azul celeste na janela dos olhos.

Passos na ponta do pé. Sentimentos coloridos, vocais em desafino. Pressa de calma, dores mal localizadas, felicidades repentinas, vazios constantes. Sedução felina, bem-me-quer sem pétalas, cactos de flores. Perguntas repetidas ao infinito. Violência delicada, verdades de instantes, afetos clandestinos, sutil movimento. Noites de insônia, dias de sono.

Percepção plástica, sobressaltos estéticos, arrombo das retinas, sensibilidade sinestésica. Caminhar poético. Convites, caprichos e vontades. Puro feitiço, argumentos de sereia. Fantasias, caos e desatinos. Largo real, interpretações e sentidos. Sins e nãos, encantamento e apatia.

Trocas de pele, mudanças de casa, raízes aquáticas, fieis amores. Sexo de temperaturas extremas, gestos impensáveis. Transborda e derrama, olhar d’ água.

Contemplar o nada, turbilhão de lembranças. Pai e mãe. Tempo que rompe o continuum, memórias anacrônicas. Idéias de revolução, imobilidade de ação. Mãos sem calos, trabalho abstrato. Criança senil. Infância prolongada, maturidade precoce. Rebeldia despropositada, comodismo humilhante.

Estado de exceção como regra. Amor e dever, fascínio pelo não, medo de voar, largas asas atrofiadas. Doces e drogas, chocolate e cafeína para ansiedade. Superstição de anéis, suscetível à fé. Cachorro e gato, borboleta e pássaro.

Bases sem chão, frio nos pés. Saudade dos queridos, nostalgia da rotina, certeza de não voltar. Nomes próprios aos objetos. Saber escutar, dificuldade de falar, amizade infinita, confissões de banheiro, pintura no rosto. Embriaguez de limão. Futilidade e erudição. Dias domésticos. Dedo de prosa com café. Isolamento de ilha, estranhos pressentimentos. Sinceridades e desafetos.Crises e fases, decisões súbitas. Escreve como fala, vocabulário particular. Vontade adolescente, desejo de sábio.

Sucessivos suicídios, reclusões em cavernas de útero. Paredes de apartamento, lançar-se à turba e encontros a dois. Maré de lágrima. História de família. Ser excesso, mel e cravo, chá sem açúcar, beijo de moças, estalo de tapa, despir vestidos, nódoa de vinho. Viagens de filme, promessa de felicidade. Paisagem verde, canto de grilo.

incompletude, criação, morte e vida…

Bocadinhos

Para Vi, Vi, Lua, “Suri”, Thâmara, o trio do rio, Carlinha e todos que se fizeram queridos…

De cada gosto eclodem familiaridades, as vivências tecem redes no lembrar. Um sotaque soteropolitano traz toda a infância e junto tempos menos remotos: quarto de irmã, língua castelhana, um falar latino cheio de cocada e dendê, sabor de queijo e vinho, embriagues de bebida amarga com coca-cola e entardecer Zapatista. Um recife lindo! Lugares que nem conheço, mas amo sua arte.

Paraísos em mim, oásis de amigos e boa solidão.

Uma lembrança leva a outra, uma articulação infinita, sem fim nem início, feita só de meios, meios como pontes para aqui e além… Nestes caminhos vou deitando meu pensamento, e por capricho me enfeito com lembranças rendadas de saudade de passado e futuro.

Nesta cadência suspendo a escrita. Em postura horizontal volto o olhar para um ponto no teto, sigo perambulando pelos lugares, encontrando pessoas, lembrando conversas e criando diálogos, visito todo mundo em mim e faço planos de realidade. Em meus pensamentos são muitos que me freqüentam e eu sou um pouquinho de todos eles, sou um cantinho de cada lugar que passei e um espaço feito só de imaginação… expectativas de encontros e viagens, lugares que ainda irei abrandar e aumentar saudades.

Despertar da semana

Hoje a Segunda-feira amanheceu nua em alvos lençois. Despida dos rotineiros lamentos e da sonolenta preguiça. Hoje não se sentia a melancólica saudade do amante Sábado e do amigo Domingo. Do contrário, pelo seu jeito de mistério e malícia, ela parecia ver nos rapazes Terça e Quarta deliciosos amores.
Nesta manhã, excepcionalmente, a Segunda se fez moça nova, com olhar adolescente e hálito de descoberta. Sem sono despertou em um gracioso espreguiçar, seus pesinhos de futuro por um instante penderam no ar, para então tocarem o chão do presente.

O romance tem razão!

Às minhas imagens mnemônicas se agregam tantas outras de origens distintas, nascimentos incomuns e, por vezes, tão extravagantes. Meus pensamentos e lembranças vão se articulando sem nenhuma linearidade, desatinam nos caprichos da livre associação. As saudades são anacrônicas estalam em uma profusão de datas e acontecimentos.

O passado não encerra nada. É tudo o mesmo de um permanete e vertiginoso por vir.

A persistência da memória, Salvador Dalí, 1931

Senhora tristeza com capa de chuva

Tem dias que acordam cinza e ocre. Uma tristeza descabida vem e envolve os humores desta quinta. Uma tristeza embalada por Vivaldi sem as quatro estações e Sinatra sem Ava Gardner. Também feita de silêncio, não há nada para ser dito, nem vontade de diálogo. Por mais que se tente explicar, justificar, nada faz sentido. Estou triste, pois ontem estive alegre, assim como hoje chove e amanhã pode fazer sol.

Não tem remédios, distrações ou anestesia, o natural é deixar-se conduzir por este páthos, abandonar o corpo à inércia da cama e deixar os pensamentos fluírem ao sabor da correnteza dos olhos, chorar mansinho sem saber o porquê, afogar-se em idéias absurdas como se o mundo fosse terminar a qualquer instante, embriagar-se de melancolia e esperar que o dia passe junto com este teto de nuvens cinzas que se vê no céu de pós carnaval.

Aprender a só sentir o acontecimento do “quando agora em mim”.

Alegria fugaz em ofegante epidemia

Hoje, em algum lugar, beijos se encaixam. Vontade de boca, engolir sem sufocar, ânsia em conhecer e só sentir o etéreo do momento. Encontro, espaço, ritmo de música e vôo, cores de circo, “carne de carnaval”.
O que se sente transforma as sensações em cenas destacadas do continuum. A embriaguez do instante faz a gentileza de recortar e guardar só o que interessa – um toque, um gesto, um sabor- e nos pensamentos cresce uma vontade de só e mais, vaga plenitude, constante desejo.

Com novas cores

Um mês de silêncio, efeito da viagem. Vivi tanto e tão intenso que faltou tempo para que as experiências se elaborassem em palavras. Tornei-me uma espécie de tela em branco, na qual se acumularam e misturaram excessos de tintas, tantos tons que não pude ser obra acabada, faltaram limites e contornos, impossível desenhar uma frase e soltá-la como algo concluído, tudo em mim era movimento- e ainda é, porém, os momentos já não se amontoam na velocidade vertiginosa, posso me recolher em sua contemplação.

Acho que o que tenho agora é uma paleta repleta de cores, com nuances que, até então, não sabia ver. Com um novo olhar me lanço em minha criação e a partir desta nova matéria, quiçá, poderei elaborar pequenos quadros de minhas experiências, interpretações do que vivi e provei que irão compor minhas lembranças, tudo isso que costumo chamar de eu.

Minhas passagens

Hora da Razão
Batatinha

“Se eu deixar de sofrer
Como é que vai ser
Para me acostumar

Se tudo é carnaval
Eu não devo chorar
Pois eu preciso me encontrar

Sofrer também é merecimento
Cada um tem seu momento
Quando a hora é da razão

Alguém vai sambar comigo
E o nome eu não digo
Guardo tudo no coração”

Amor líquido

De ser há tanto tão sólida, de repente torna-se inevitável se liquefazer, até quase evaporar, virar névoa, nuvem, bruma. Escorrer entre os dedos de quem tenta reter, nada ter, apenas fruir o acontecimento. Deixo de ser pedra segura, amor doméstico, vontade de lar e viajo, vôo, liquefaço.

Escorrego, me perco e me acho, fujo, rompo e desfaço. Os conceitos há muito me endurecem, me ataram até tornar a liberdade necessidade inevitável ou, de outro lado, fazer da vida morte protegida. Não sei mais pra onde vou, o que sou. Só sei o que não quero, e obedeço ao que pede o desejo, me lanço nos braços do último instante e faço amante tudo que é derradeiro, só para saber como é sentir medo.

Continuum e ruptura

” E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,e a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa”

Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)

Sempre atravessa uma falta que não chegamos a saber se é falta ou sobra, desatinamos entre estes extremos, constante paradoxo. Porém o certo é que ambos vazam, esburacam uma dor mal localizada.

E cada dor incomoda a sua maneira, pela falta somos lançados ao abandono, um desconsolo insuportável, o absurdo irremediável de sermos sempre só e termos que encarar toda nossa precariedade.

Já os excessos nos sufocam e paralisam, nos completam a tal ponto que deixamos de desejar, transformamos todo movimento de busca em um grande bocejo satisfeito, no qual nos deixamos engolir. Fazemos crer que a solidão é moça estranha cuja entrada deve ser barrada às portas do mundo a dois. Porém, ao iludir que a vida é feita em par, esquecemos que é só na companhia da solidão que nos conhecemos. Suas cores púrpuras fazem contraste com o que somos e então nos vemos. É nos braços da solidão que nos descobrimos e nos criamos.

Os excessos de presença invadem todos os espaços, transformam o que era para ser plural em uma massa homogênea, uma simbiose perfeita, tudo tão próximo e misturado que perdemos os limites, não sabemos onde terminamos e onde começa o outro. Estar junto deixa de ser um encontro e passa a ser uma necessidade, um vício. Não há mais o que conhecer, não há mais o que mostrar, o infinito alheio se transforma na estreita repetição do mesmo.

O amor perde o matiz de mistério, as cores da paixão se desbotam e a vida segue delicadamente fraterna e morna. O futuro é previsível, a morte uma questão de tempo. O sexo é um leito seguro. Os choques, sobressaltos e riscos foram devidamente aparados. A linha segue reta e certa até o final.

Aboletas borboletas

Isso que invade, me toma, entra de mansinho e me arromba, passa por todas as frestas, buracos, todos os lados onde não há vigias. À minha revelia vai se apossando, faz trato com meus desejos, tramam artimanhas para me confundir. Sem que eu perceba vou me dando, me entregando, deixo de ser dona para ser domada. Com passividade digo sins, meu querer se embaraça, se mistura, já não sei qual é meu lado, o que é meu, o que é eu.

Desatino, para não sucumbir, e alço voou.

Metáfora Anoréxica

Refluxo, azia, secreções gástricas. Variações entre humores ácidos e básicos. Certas emoções caem em meu estômago e queimam minhas paredes, dissolvem o chão de minhas vísceras. Outras empanzinam, entopem com bolo seco de vazio.

Nada mata, nem alimenta. Apenas este permanente enjôo, fome de sei lá o quê. Os pensamentos ruminam, retornam, estacionam, não são vomitados, nem digeridos. Apesar da obesidade interna o que se mostra é só raquitismo. Melhor é nem comer.

Afluxo de aflição

Mas de onde vem essa angústia? Onde fica a nascente deste incomodo que de repente me toma, me faz desencontrada, sem casa, sem eixo, sem centro? Ao invés de inundada, queria poder enxugar a dor, ou mudar o curso de minhas aflições, desaguar minhas misérias em feitos, em atos, qualquer coisa que seja bom e, quem sabe, até belo.

A sorte tem seus caprichos e correntezas. O que faço é caminhar em minhas margens. Ora piso passos certos e decididos, ora tudo muda, experimento um inferno borbulhando no peito, um nó catarrado na garganta, um desatino contido. Não há lógica em meus sentimentos e eu me boicoto, me interrompo, me desacredito. Afogo toda lucidez em lágrimas de criança. E a pergunta reverbera: “O que quero?”. Não há resposta. Então lanço para o outro, para quem possa responder pergunto: “O quê foi?”. Aí está o problema, ainda não é. O querer não se fez.

Como só careço, procuro algum sustento em assaltos, aponto meu olhar interrogação como arma de bandido. Quando menos se espera descarrego minhas palavras, balas de abrir buracos. Furo todos os sentidos, deixo ficar sem resposta, sem jeito, esfrangalhado mesmo. Exponho os fiapos, a dor que não sei curar, e fujo. Prendo a respiração e mergulho o mar de vazio. No improvável insisto em procurar alento, ungüento, qualquer nesga de certeza que acalme o abismo devorador. Navego em busca de uma vontade, de um desejo, de um timoneiro para guiar o meu destino.

Répteis

Homem pífio, sua existência e de todo um erro. Em qual pouca monta o tenho, espécie pequena de corpo e espírito, acostumado ao chão; rasteja. Lambe os restos e o mais próximo que tens de pretensões ao elevado é o sentimento de inveja que trazes em seu olhar de soslaio. És torto, és pouco, rumina todos os vícios em ti, consegue ser ao mesmo tempo o inescrupuloso criminoso e o olhar julgador de carrasco asqueroso.

Teu pensamento se constrói no que é preconceito, limita-se às medidas de toda moral religiosa. Tabus, dogmas, leis pontuam a culpa que carregas no peito. E por este peso aborta tudo que é fértil, estupra tudo que é puro, não tens escrúpulo, age como um bárbaro, só para satisfazer teu gozo injusto.
Fraca criatura, não és mais que escravo da doença desse prazer masoquista.

Contos árabes

Desfaço o que disse. Volto, retorno, desato os nós que não foram dados e laço com fita de cetim todo céu em mim. E se não for para ser, já deu, ficou este papel branco em meu leito. Rasgo e escrevo para agora queimar com água de rosto. Em todo amor há um pouco de vício.
E se a sorte for curta e a vida for pouca? Invento outra história para fazer durar as noites derradeiras. 1001 segundos de vida, sempre a inconstância entre a morte e o amor. Até que algo acontece…

Vernissage

Escrevo por deleite e aflição. Preencho com palavras o que é permanente tela vazia. Com os olhos fotografo as imagens passantes, destaco sutilezas da multidão e revelo com as cores do sentimento. Ensaio tocar instrumentos, mas os melhores acordes tiro no corpo, meus dedos sabem tocar peles e pêlos. Quando saio em companhia da felicidade, entôo canções pelos cantos, sem importar com a crítica que repara e passa. Faço filmes com conversas minhas e alheias. Em colóquio interpreto graças e dramas. Sem mesmo encenar, me saem caras e bocas e mais um tanto de gestos. Danço se adivinho a alegria vindo, posso até saltar e por um instante me apresento bailarina alada, leveza de borboleta. No vento minhas mãos gostam de esculpir o ar e na praia são os pés que criam figuras abstratas. Ao dormir adentro os sonhos, atelier onde crio o surreal e o impressionista.

Atravesso poesias, imagens e sons, cada instante é todo estético. Mas não há em mim nada de artista, o que faço é olhar com arte. Sou uma espectadora nata, percebo a exposição do real que inaugura a cada dia.

Fotografia

Imagens captadas pelas lentes, momentos transformados em estátuas. Só para o deleite dos olhos que tocam a profundidade destas superfícies rasas e luminosas.

Quero lançar-me neste abismo do olhar que seleciona e destaca. As almas dos instantes são para sempre retidas. A partir de sua eterna contemplação é concedido ao pensamento passear nas mais vagarosas idéias, aquelas que no segundo do clik não tiveram tempo de serem escutadas.

A fotografia permite retornar aos fatos e pintá-los com outras cores, novas interpretações. Neste movimento de retorno nos transporta para a terra da reminiscência, ou nos leva à lembrança do que nunca foi. Torna a memória colorida, mesmo nas fotos em preto e branco. Preenche, de significados e sentimentos, os fatos que no etéreo de um segundo não foram percebidos, nem inventados.

Um instante…

(para Dionísio que põe Apolo em frêmito apaixonado)

Tento reunir as várias personagens em mim, mas elas cismam em dar festa, misturam-se, amontoam-se e até se confundem dançando no ritmo de alguma modinha estridente. Não é mais possível dizer: “esta parte em mim”, pois todas se movimentam fazendo arruaças, rindo e se embriagando. Aquelas que se concentravam e ansiavam o estudo, as longas horas de leitura, já viraram algumas transbordantes doses de absinto, além da cerveja cara e cachaça de boteco, arrancaram as roupas e estão dançando, nuas! Em cima da mesa. As responsáveis dilaceraram o juízo com unhas e dentes e o devoraram ainda vivo, possuídas como as bacantes. As outras, caseiras e recolhidas, atiçaram fogo em todos os quartos e em todo canto que exalasse algum resquício de abrigo e segurança. E as que já eram afeitas ao caos, simplesmente fazem isso que sabem, festejam o lascivo feriado prolongado dentro de mim.

Visão da paranóia

Pressinto dores de estremecer os móveis. Solidões de banho quente, embaraços sem pente. Vejo em sua mão, linhas cortadas, nós de serpente. Na borra do café seu destino se desenha escuro, tingido de negro e preto. E a cigana, do outro lado, já anunciou amores desencontrados. O futuro não garante e a felicidade está de mal.

Ouça o que digo! A rua traz riscos e em casa há fantasmas. Cuidado com os passos solitários e as companhias perdidas. Todo início de dor é leve, mas com o tempo o suave toque atravessa a carne. Amuletos não afastam o que carrega no peito e santos só são bons para os que estão em comunhão. Também não aconselho pactos com criaturas das trevas, tudo que cega só serve para embotar a visão.

O medo é o vizinho que mora ao lado. Por isso, fecha a porta, mas não tranque: Nunca se sabe o que te espera em casa. Atenção com a saúde! Em cada comida mordisca os dedos da morte e todo líquido que sorve é estúpido veneno, o prazer que alucina te condenará aos últimos dias.

E lembre-se, nada de fortes sentimentos. A apatia é melhor amiga, nem conforta nem incomoda. O desassossego dos pensamentos e a ansiedade inquietante são o punhal traidor. Colorem a vida em extraordinários momentos e sorrateiramente a aniquila em ataque cardíaco e aneurisma.

Por isso, não tenha pressa a vida se esvai devagar e se finda de repente, é só sentar e esperar.

A miséria de meus heróis ou Hipócrita leitora

                                                            (para Walter, Charles e Marcel)

Meus heróis levaram vidas de tropeços. Equilibravam-se nas incertezas, tiravam belezas de suas carências e misérias. Seus sucessos não passavam da altura do meio-fio, onde sentavam e juntavam comida e idéias. Deste ignóbil pedestal, trajando parcos agasalhos e sapatos furados, com seus pensamentos enfeitavam-se. Suas obras, seus legados, são auto-suficientes, possuem vida própria e o dom da imortalidade, exercem em nós grande influência. Os pais de preciosas idéias por toda vida dependeram de seus donos, esperavam a esmola, a mesada, o auxílio para que pudessem sobreviver a mais um dia no exílio que escolheram como lar.

3° dia:

AVENTURAS

de Airton Antônio Rodrigues

NAS RESSACAS DO MAR BRAVO,

NAS BEBEDEIRAS SEM ZELO,

NOS CHEIROS DA CIDADE,

NOS VENTOS DE GELO

DO MAR DE PESADELO:

A DURA VERDADE

DE QUEM RI DO PERIGO

E FOGE DO CONFORTO.

LONGE DE CASA,

COM SUOR E SAL,

COM CEU DE TORMENTOS,

COM TODOS OS VENTOS

E ELEMENTOS.

NAS PERDIÇÕES DA VIDA,

NOS BEIJOS ROUBADOS,

NA CACHAÇA QUERIDA,

NAS MULHERES SEM DONO,

NO TRISTE ABANDONO

DA ROLETA DO MUNDO,

NO BLEFE DA SORTE:

A DESTRA MÃO FORTE

QUE ACOMPANHA A CABEÇA

E SALVA DA MORTE,

QUE VIRA A MESA

NUM GOLPE DE LORDE.

NOS INCÊNDIOS D’ALMA,

NOS FURACÕES DO ESPIRITO,

NO VIVER SEM CALMA

DO SER AGUERIDO:

A LOUCA VONTADE

DE SUGAR TODO AR,

DE ENTREGAR-SE AO MAR

FEITO BICHO PERDIDO,

CANSADO, SORRINDO.

NO PEITO DESTEMIDO

O CORAÇÃO EXPLODINDO.

UM BELO IDEAL,

UM MORRER LINDO.

2° dia:

Liberdade

de Airton Atônio Rodrigues

Gostaria de ser livre,

Viver no vento,

Nas mãos do oceano,

adormecer embalado.

Gostaria de assim viver,

Feito cachorro sem dono,

Como um homem do mar.

Gostaria de não ter amor,

Que me prendesse à terra,

Romper o cordão,

Virar bicho aquático.

Em barco frágil,

Viver de brisa,

Dormir com a lua,

Acordar com sereias.

Gostaria de ser um veleiro,

Viver numa vela,

Ser uma vela,

Ser amante do mar.

Esquecer como andar,

Como sentar-se à mesa,

Esquecer a diferença que há,

Entre adormecer e despertar.

Viver de vento,

Sem dormir, sem acordar,

Sentir o vento em cada célula,

Sentir a vida em cada molécula,

Conhecer todos os mares,

Todos os medos,

Todos os perigos,

E buscar todos os riscos.

Gostaria de embarcar,

A procura de mar e vento,

De amor e sofrimento,

De vida e encantamento.

A falta que vaza

                                                                                (Para minha amiga infinita)

Em algum momento, se não na maior parte da vida, se é tomado por uma dor mal localizada, uma angústia para qual se busca dar algum sentido, aplacá-la atribuindo-lhe nomes e palavras.  Mas sempre fica algo por dizer, uma carência não se sabe de quê.

Talvez seja a falta de alguém, de algo, a necessidade de um conforto espiritual, um pensamento, um sentido… Por mais que se tente, sempre falta, tudo é paliativo, um anestésico para esta dor insuportável e constante.

Felizmente há lapsos de plenitude. Instantes em que se experimenta uma completude irracional; um estado de graça, ou um torpor apaixonado, ou ainda uma crença de grandeza heróica na humanidade. E por estes momentos vale a pena lançar-se à vida. Continuar persistindo na tentativa ingênua de preencher toda a falta, todo esse imenso vazio que nos atravessa.